Uriel Lerner

Anne Carson conhece bem o silêncio. Como tradutora de latim e grego antigo, línguas mortas, é necessário negociar com os possíveis espaços e lacunas físicas, já que muitas obras se perderam ou chegaram até nós muito fragmentadas. Tentar traduzir um poema escrito há dois mil anos atrás, escrito num papiro quase em frangalhos, por exemplo, é uma tarefa árdua. “Metade do poema é espaço vazio”, Carson diz, se referindo a um poema de Safo. Ao ler um texto fragmentado, repleto de espaços vazios, o leitor deve “olhar através das lacunas”, e do outro lado encontrará “um outro mundo”. Nessas lacunas, nesses espaços em branco, duas opções surgem: preenchê-los ou honrar o espaço, o silêncio causado pela ausência de texto, incorporando-o ao sentido final do poema.

Há muitas maneiras de comunicar o silêncio numa obra literária. Um escritor pode utilizar reticências para indicar uma pausa na fala durante o diálogo; o travessão para sugerir que o personagem foi interrompido. O leitor pode, também, encontrar direcionamentos explícitos como “fulano ficou em silêncio” numa narrativa, ou “silêncio pesado” na leitura de uma peça. Todas essas formas sugerem o silêncio dos personagens, mas não o impõe ao leitor. Mas em H of H Playbook, Carson impõe silêncios ao leitor múltiplas vezes. A autora poderia enunciá-los no texto, através das didascálias, já que se trata de uma peça. Ao invés de explicitar “H of H se calou”, ou “todos em silêncio”, Carson deixa grandes espaços nas páginas ou as deixa totalmente vazias para indicar as pausas entre as falas dos personagens nos momentos de terror ou contemplação.

Antes mesmo de o texto aparecer, o livro começa com três páginas em branco parcialmente rasgadas. Mais adiante, o vazio se repete em ocasiões variadas, seja em páginas brancas, ou com pouquíssimo texto, apresentando fragmentos espaçados. Uma desses momentos é quando Anfitrião, pai de H of H (um personagem que evoca Héracles), descobre que seu filho matou a esposa e filhos num acesso de loucura. Anfitrião diz “devo me aproximar?”. Mas o leitor tem de esperar a resposta, tem de virar a página, para ler a fala do coro: “não pode abandoná-lo agora”:

Esse é apenas um exemplo da importância da ausência ou escassez das palavras, que consequentemente vão adensar o texto e também dizer algo, as vezes até mais que as palavras presentes. Ao nos depararmos com uma página em branco, existe inicialmente a quebra de expectativa – afinal, é um livro; espera-se que seja recheado de palavras – e, se o leitor se enfrenta com o silêncio, a ausência, o fragmento por tempo demais, surge a tensão: o que o estará esperando atrás da cortina, na próxima página? Isso faz com que o palco da peça não seja somente o imaginário, mas também a realidade na qual o leitor se encontra. Ao forçar os silêncios, não é possível se antecipar correndo os olhos pelas páginas; Carson requer que o leitor seja tão surpreendido e horrorizado quanto os personagens pelos acontecimentos que se desenrolam.