Uriel Lerner

Créditos da imagem: Vulcão Etna em obra de Athanasius Kircher, na capa de Autobiografia do Vermelho (edição brasileira)
“Que diferença Estesícoro fez?”, Carson pergunta na introdução de Autobiografia do Vermelho. Ao escrever sobre o autor de “Geroneida”, poema fragmentado que narra vida e morte de Gerião, gigante que morre pelas mãos de Hércules em seu décimo trabalho, Carson concentra-se na maneira como o poeta grego usava os adjetivos. Os adjetivos são “as amarras do ser”, mecanismos que atribuem às coisas do mundo seus lugares, afirma Carson. Mas Estesícoro rompe com essas amarras e lança mão da liberdade para lidar com as palavras para suspender qualquer ideia fixa de significado: “As palavras, se permitirmos, vão fazer o que querem e o que têm de fazer”.
Ao ser comparado com Homero, Estesícoro se torna uma espécie de reflexo invertido; um oposto. Para Homero, o ser é estável: “as mulheres são de olhar refulgente [e] a morte é ruim”. Estesícoro, entretanto, fez tudo voar pelos ares: cavalos têm cascos ocos.; um rio tem raiz de prata. Mais adiante, sobre a Geroneida, Carson diz que “é como se Estesícoro tivesse composto um poema narrativo substancial, o rasgado em pedaços e os enterrado numa caixa”. A dificuldade do poema vem daí, afirma a escritora canadense, “os números dos fragmentos dizem a você aproximadamente como os pedaços saíram da caixa”, mas “Você pode é claro continuar sacudindo a caixa”.
Me pergunto se não é esse também o modo como Carson lida com a tradição clássica, voltando, muitas vezes, recorrentemente a um mesmo mito, como acontece, por exemplo, com Héracles, traduzido em Grief Lessons e remontado em H of H Playbook. Aí, Carson também parece fazer “tudo voar pelos ares”, liberando qualquer amarra que fixe significados e formas de pensar e criar. Considerando a maneira como Carson cuida da materialidade de seus livros, como ela os configura, incorporando a eles o processo da própria criação, vale a pena perguntar também que diferença Anne Carson faz quando retoma o imaginário clássico.
Na caixa desenterrada com os pedaços do poema de Estesícoro, Carson adiciona fragmentos de Homero e ao chacoalhá-la, consegue abarcar tanto a tradição homérica quanto aquela deixada por Estesícoro em sua escrita. Em H of H Playbook, ao escolher frases como: “Medo é um pecado”, ou “uma geleira é silêncio”, se aproxima da escrita incisiva e direta de Homero. Em outras passagens, como em “o espelho é inabitado” e “terra é matéria fora do lugar”, Carson se assemelha a Estesícoro. Não só os adjetivos libertam as amarras do que a história pode ser, pois a ideia de ‘tradução’ é subvertida, as concepções de ‘forma’ derretem ao tentar categorizar a obra, a própria experiência de leitura é conturbada pela maneira como o livro é construído e apresentado. Assim, a noção de “amarras do ser” se estende para além das palavras no que Carson faz.