Muriel Lerner

Crédito da imagem: Cy Twombly: Untitled (Say Goodbye, Catullus, to the Shores of Asia Minor), 1994.
Gostaria de tentar algo diferente com esse post. Ao invés de escrever especificamente sobre a minha pesquisa, quero fazer algumas associações breves — sobre Cy Twombly, pintor estadunidense; Catulo, poeta romano, e Anne Carson, poeta (entre outras ocupações) canadense — e divagar um pouco sobre meu atual “fim” de ciclo na iniciação científica e os pensamentos que me surgiram.
No texto The Sheer Velocity and Ephemerality of Cy Twombly, Carson pensa sobre Twombly através dos poemas de Catulo, por quem o pintor tinha uma adoração. Carson também tem sua história com o poeta romano. Ela traduziu a elegia 101 de Catulo para o irmão, poema presente no livro Nox, que por sua vez é a elegia feita por Carson para seu próprio irmão que faleceu. O assistente de Twombly revelou que o pintor admirava esse poema “por sua linguagem pelejante que abarca todo tipo de emoção”.
Carson diz: “Associar exposição e destruição, Eros e Tânato [“Vida-Morte”], é um instinto filosófico e um método artístico que Twombly e Catulo compartilham”. Twombly é reconhecido por sua abstração e seus traços erráticos e expressionistas; Catulo era parte dos poetae novi, aqueles que rompiam com as características homéricas de poesia e rejeitavam normas literárias. Carson, como já comentei em diversos outros posts, também abraça aquilo que é instável, mistura clássico e contemporâneo, busca outras formas de realizar literatura. Sobre os outros dois — e é o que também penso sobre ela — Carson afirma: “Todo método é um ‘ato de dúvida’”.
A minha comunicação oral no Congresso UFBA 2025 foi a concretização de um pequeno ciclo, também repleto de dúvidas. Uso “concretização”, e não “encerramento”, pois iniciarei uma nova pesquisa, ainda pensando sobre Anne Carson, e poderei continuar atando laços e amarras a tudo aquilo que li e escrevi previamente enquanto sigo adiante. Ao imaginar o que eu gostaria de fazer após o final dessa pesquisa, a única resposta que me parecia concebível era deixar as ideias fluírem a partir das leituras de Carson. Uma nova obra de interesse; outras maneiras de pensar; outros focos teóricos — e no meio disso, certas constantes, que seriam a liga entre a pesquisa que se encerrou, a nova que se inicia e os próximos projetos que tenho em mente.
Em uma publicação prévia, em novembro de 2024, eu comentei sobre o “eterno retorno” de Anne Carson e sua “recusa à finalização”. Enquanto pesquisava e pensava sobre H of H Playbook, seu livro de 2021, percebi os paralelos e as diferenças com a coletânea de traduções realizadas por Carson em 2008, em Grief Lessons. Em ambas as obras, ela bebe na fonte da peça Herakles, de Eurípedes, mas de (e com) formas amplamente diferentes. Como mencionei na publicação, Carson frequentemente retorna para suas próprias obras, notando possibilidades de expansão ou transformação. Depois de quase um ano me aprofundando nessa pesquisa — tempo que parece tanto, mas ao mesmo tempo tão pouco —, me atrevi a pensar que talvez eu pudesse trilhar um caminho similar, intencionalmente procurando a não-finalização, a continuidade, as múltiplas referências. Um caminho errático, baseado no “ato de dúvida”.