Uriel Lerner

Créditos da imagem: Colaborações entre Anne Carson e Kim Anno. À esquerda, fotografias para o livro “The Albertine Workout” (2014). À direita, para o livro “Sleep”, um projeto não finalizado.

Carson é, além de uma grande autora, uma grande colaboradora. Trabalhando junto a múltiplos artistas, Carson já fez parcerias com a companhia de dança Merce Cunningham, com a artista experimental Laurie Anderson e o músico Lou Reed e com a artista visual Kim Anno, com quem já trabalhou diversas vezes. Essas colaborações partem dos textos de Carson e são desenvolvidas com o marido e artista Robert Currie, também interessado na    sobreposição de categorias. Em uma entrevista feita por Megan Berkobien para a revista Asymptote, o casal conversa sobre a ideia de colaboração, trazendo uma ideia que acredito ser essencial para pensar sobre as obras de Anne Carson:

Berkobien: Carson, […] sua escrita enfatiza com frequência uma natureza não resolvida, em que as coisas podem, simplesmente, não acabar. Como vocês dois negociam essa diferença entre conteúdo e precisar produzir um trabalho realmente finalizado?

Carson: Nunca finalizando a obra, alterando-a em performance ou meio, transformando um livro numa dança, ou uma dança em escultura.

Esse movimento de expansão em direção a outras áreas artísticas por Carson também é realizado dentro de sua própria ‘bolha’ literária, numa espécie de tecelagem de gêneros, algo que já discuti em outros textos, aqui no blog.  Hoje, quero me deter na ideia de colaboração e na resposta de Carson de que está tranquila quanto a “nunca finalizar uma obra”. Quero aproveitar para relacionar essas posturas de Carson para pensar as inúmeras recorrência ao mito grego de Héracles, tão apreciado pela autora.

Carson já trabalhou quatro vezes com Héracles e sua tragédia: Em 1998, há a publicação de Autobiografia do Vermelho, baseada no mito, mais especificamente, no décimo trabalho de Héracles, com ênfase no personagem (originalmente de menor protagonismo) Gerião. Em 2006 publicou “Grief Lessons”, traduzindo pela primeira vez a peça de Eurípedes, Héracles, junto a outras três: Hécuba, Hipólito e Alceste. Lançou uma sequência a Autobiografia do Vermelho de título Red Doc>, combinando poesia, prosa e drama em 2013. Finalmente, em 2021, Carson retorna a Eurípedes com H of H Playbook.

Ainda na entrevista concedida à revista Asymptote, Carson concorda que a tradução é uma espécie de colaboração com a obra original:

Berkobien: Como você acha que o tempo opera numa tradução? A colaboração auxilia em criar uma ponte?

Carson: Uma ponte de onde para onde?

Berkobien: Entre tradições. Como você as entrelaça? É uma escolha pessoal decidir quais tradições serão incluídas?

Carson: Claro. É uma escolha muito pessoal. Acho que [escolho] qualquer coisa interessante.

Esses múltiplos retornos à mesma fonte podem ser vistos como colaborações com o próprio Eurípedes, que trabalhou em seu tempo com as histórias mitológicas para revelar esse ‘herói-anti-herói’, numa peça que destrói o esperado de um drama épico ao questionar a moralidade – e até mesmo a existência – de deuses.

Carson busca Héracles repetidas vezes para criar algo único, explorar seu personagem e sua história, criando novas narrativas que se alinham a temas contemporâneos. Se para Carson, as obras permanecem abertas mesmo após as suas ‘finalizações’, é possível buscá-las de novo e de novo, sempre que necessário, observando-as por outras lentes e recriando-as através de novas formas. As tradições do passado, então, são retomadas pelo presente – uma colaboração entre tempos, entre autores, entre histórias.