Uriel Lerner

Em 416 a.C., Héracles de Eurípedes foi apresentada pela primeira vez. Em 2021, Anne Carson publicou H of H Playbook, sua tradução da peça de Eurípedes. Essa linha do tempo é repleta de referências e reverências ao mundo clássico. Diálogos com o mundo clássico não são exatamente uma novidade na linguagem artística. No ano de 1947, Cesare Pavese publicou seu livro Diálogos com Leucó e em 1949 escreveu A Lua e as Fogueiras. Em 1979, Danièle Huillet e Jean-Marie Straub lançaram o filme “Da Nuvem à Resistência”. 

O filme é constituído por duas partes. A primeira é composta de seis histórias retiradas de Diálogos com Leucó, livro de Pavese, uma coleção de diálogos breves sobre mitos gregos.  São conversas filosóficas entre figuras mitológicas ou entre mortais: Édipo e Tirésias conversando numa viagem de charrete; dois caçadores discutindo sobre reencarnação humana como castigo divino. Há reflexões sobre o prazer dos deuses em infligir violência aos mortais para o próprio entretenimento. A cada episódio, o tempo avança e a realidade terrena é marcada pela violência. No fim da primeira parte, pai e seu filho conversam frente a uma fogueira. No diálogo, fica explicito que a ordem dos deuses já não é necessária – agora os homens atacam seus próprios semelhantes. 

A segunda parte do filme é baseada em A Lua e as Fogueiras. Assim como no livro, acompanhamos um protagonista que retorna a sua cidade natal logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, podendo reviver memórias que marcaram sua juventude, ao encontrar  uma cidade profundamente alterada pela guerra. O filme explora o paralelo com a persistência do fascismo italiano. O protagonista descobre que seus amigos, integrantes da Resistência Italiana, morreram – o que também altera de forma fundamental as relações interpessoais.

Frame do filme “Da Nuvem à Resistência” de  Danièle Huillet e Jean-Marie Straub.

Em H of H Playbook, Carson traduz a peça de Sófocles ao mesmo tempo que a empurra para o século XXI. No original, Héracles termina seus 12 trabalhos para o rei e, ao voltar para casa, é enlouquecido por Hera e mata sua família. Ele deseja se matar ao perceber o que fez, mas é impedido por Teseu. Na tradução, H of H retorna à sua casa após muitos anos impondo caos e barbárie atuando como soldado norte-americano. Traumatizado no pós-guerra, refere-se ao seu tempo militar como “os trabalhos”. Sem apoio psicológico, assassina sua família num momento de crise. Seguindo a trajetória de sua fonte, H of H é esse “herói trágico” que ao mesmo tempo é o vilão da própria história. Como soldado, ele é um serviçal, um peão para os desejos de um Estado imperialista, ao mesmo tempo que é o agente da devastação ao apertar o gatilho.

H of H Playbook vai até o mito diretamente, e “Da Nuvem à Resistência” vai até os escritos de Pavese, que por sua vez são baseados nos clássicos. Todos retornam a algum lugar na História para, posteriormente, recontá-la em seus termos: a miríade de possíveis guerras envolvendo os Estados Unidos, a Segunda Guerra Mundial, a Itália Fascista. H of H vai explicitar as múltiplas tragédias consequentes das instituições norte-americanas de guerra e violência, máquinas do imperialismo; agentes do fascismo, através da reimaginação do mito de Héracles. Várias perguntas surgem: é possível valorizar um herói como Héracles? O que é um herói? E no caso de Straub-Huillet: como os deuses podem ser justos, quando tantas atrocidades assolam os mortais? O coro de Carson diz: “os males aqui… vão muito além / de qualquer coisa do passado”. 

Sobre a linguagem de seus filmes, a cineasta Danièle Huillet afirma que: “é o mesmo trabalho que os poetas fazem com a língua. Eles pegam uma língua que em muitos casos se tornou engessada, […] e de um só golpe eles tentam fazer coisas que não se tinha feito ou que se esqueceu de fazer há muito tempo”. É também a partir dessa ideia que Carson escreve. A evocação dos mitos é o ato de forçá-los a se entrelaçarem com o agora, com a correnteza do tempo a fim de criar uma nova potência de acordo com o momento em que viviam, para que ganhem outra camada de relevância e gritem com o presente.