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Nov23

I - Jardim das Tormentas. 1913.

Manuel Pinto

(...) «Finda a canção, novamente se ergueram ao assalto em seu peito os ressaibos voluptuosos do vício, os remorsos de devoto velho, desgarrado de Deus, e os escrúpulos de sacristão. Sim, magnos escrúpulos, como de alta potestade que era na igreja! Pois não é que, quisesse ele, e podia envenenar um cónego ou dez cónegos com o vinho das galhetas; mergulhar Deus-Padre e seus ministros nas trevas do Egipto; fechar as portas e fazer do templo uma cidadela de que se arvoraria castelão? Ai, ai, tudo isso era assim, mas ao que ele, por agora, aspirava era não fornecer mais pretextos à cólera do Arcebispo que, farto de censurar-lhe os hábitos de tresnoitado, frascário e calaceiro, ameaçava destituí-lo das funções que exercia na Catedral. Despedido, era um homem ao mar com aquela sua negação visceral para fazer o que os outros fazem, coser albardas, dar à atafona, malhar ferro, roubar no Potro. Tudo, mas um bribón desses, ná! Agora, perder aquele rico lugarzinho, quase tão cómodo como o de chantre, que pouco trabalho era vestir uma opa vermelha ou branca, e às vezes roxa, tirar a opa vermelha, branca, às vezes roxa, tanger os alegres sinos em três tons: picados para a santa missinha; como uma tarantela, na garrida, para baptizados e desposórios; longos, plangentes e repetidos dobres quando morria um familiar do Santo Ofício ou grande personagem da Igreja; escorropichar as galhetas; vigiar as zeladoras que cuidam dos altares; pôr tranca, erguer tranca; benzer-se, mil vezes; persignar-se quinhentas, safa! Melhor empreguinho só suíço do papa!
O senhor Arcebispo ameaçara-o, e a sua catadura parecera-lhe como a do carrasco, entre severa e escarnenta, que vai degolar um picarón:
— Rafael, estás aqui estás no olho da rua! Pepe de Valbuena anda à coca... Para mais recomenda-o o senhor Governador. E, sabes, Pepe tem fama de honrado e santo homem...
— Santo homem? Benza-me Deus! Santo homem um patife que empresta a vinte aos esganados de corda na garganta e tem uma casa de tias?!...
— Como sabes?
— Disse-mo a Lolita, da Chica Menuda, que ele anda a desinquietar lá para o bazar...
Que foste tu dizer, Rafael?! Porque não deste com a cabeça numa pedra e a não fizeste em mais cisco do que é?!» ...

                                                                           (continua)  

publicado às 18:07