y sois moledor.
Depois de cantar, seguiu um bom espaço em silêncio, sem ideias precisas, ocupado com levar pela rua íngreme, calcetada pelo Diabo, o cadáver mal comportado e exausto. Mas breve recomeçou com o solilóquio:
— Rafaelito, ninguém te agradece a madrugada! Nem os santos, nem as santas, muito menos o senhor Arcebispo, se soubesse a causa. Estiveste a ajudar alguma alma a bem morrer, a salvar a casa do vizinho do incêndio, carregaste algum enfermo para o hospital? Nada disso, nada disso, Rafael! A esta hora estarias ainda na Chica Menuda se ela te não pusesse a mexer.
— É verdade, maldito de mim! Mas, caramba, alfobre de mulheres como aquele não há segundo na Andaluzia. Para que criou Deus tais pécoras, as castanholas e o vinho de Riego?
— És um granuja, Rafael, e bem se vê que não tens emenda. Querias então que te agradecessem chegar hoje a hora exacta para tocar à missa de Monsenhor Chafamarasca Roja? Olha que é um pouco mais madraço do que tu e, em vez de te ser reconhecido, encomendava-te a todas as pragas do Mafarrico. Acender as luzes mais cedo, para quê? A Deus, anjos e santos, alumia-lhes a luz celeste, que vale mais que a da cera. Varrer o sagrado chão a tempo e horas? Quê, quê... com esse sono a pegar-te los parpajos?! A tua real gana era fechares-te na toca e dormir, dormires a boa hora adiantada que hoje esbanjas, e faz parte do teu património de cão vadio, como o ar e a água das fontes, essa hora bendita que não deve nada a ninguém, não era? E ias dormi-la, olé, como sete pecadores, que devem dormir, todos somados, como um justo, meu cachorro! Se ias! Ah, estás danado por isso, mas temes esse regalado e maldito sono que te ata às vezes mais atado no catre que um morto na tumba!...
Rafael de la Ronda cismava um instante nas suas razões, profundas como o poço dos seus pecados, e volvia a cantar:
..............................