(...) «-- Rafael -- dissera-lhe Monsenhor -- a Catedral é delicada demais para as tuas mãos. Aqui exigem-se mãos de homem que sejam finas e buliçosas como mãos de mulher. Desajeitado não és tu, não; mas quê, fizeste-te um ralaço sem pejo nenhum. Chegas tarde, a cair de sono, e a tua boca rescende à aguardente e ao pecado como a porta duma taverna. Eu sei a vida de perdição que levas Rafael! Tu jogas os dados, frequentas as mulheres de má vida, dás-te à embriaguez, e vinum memoriae mors. Daí o teu desmazelo. Porque tu desmazelas a casa do Senhor... Os altares andam arranjados a trouxe-mouxe; as flores ficam a murchar nos vasos até caírem desfolhadas para as toalhas; nos próprios vasos a água choca cheira que empesta; tu nem a monca dos círios aparas sequer. Há dias pegou o fogo num retábulo de Céspedes -- por culpa tua Rafael, por culpa tua! É de mais. Não me perdoaria Deus se fechasse os olhos a tanta incúria. Escuta: se a partir de amanhã não tiveres emenda, mando chamar Pepe de Valbuena e entrego-lhe a pasta. Às oito horas, as portas da Catedral querem-se abertas de par em par; às nove, nos altares em que vêm os senhores cónegos dizer missa, devem as galhetas estar cheias e acesas as luzes; não quero ver um grão de poeira no chão; é preciso que a casa do Senhor esteja sempre limpa e espelhada como um prato antes de se comer. Compreendes, Rafael? Serei inexorável, porque já te disse: homine imperito numquam quicquam injustius. Com homem desleixado não há que ter contemplações.» ...

                                                                  (continua)