Guimarães Rosa – Grande sertão:veredas XV

[…] Aí, me lembrei, de uma coisa, e isso era próprio encargo para ele, cabendo em sua marca de qualidade. Me lembrei da pedra: a pedra de valor, tão bonita, que do Arassuaí eu tinha trazido, fazia tanto tempo. Tirei o embrulhinho, da bolsa do cinto. Apresentei a ele. Eu falei:

– “Sêo Habão, o senhor escute, o senhor cumpra: pega este, mimo zelando com os dedos todos de suas mãos…Já e já, o senhor viaje, num bonito animal, siga rumo dos Buritis Altos, cabeceira de vereda, para a Fazenda Santa Catarina…”

E mais disse: que era para entregar, de minha parte, à moça da casa, que Otacília se chamava, a qual era minha sempre noiva.

[…] Mas o sêo Habão não queria ter terminado:negócio que carecia ainda de um ponto. Dei licença. Ele perguntou, sonseante:…se eu não prazia de enviar por ele algum recado também para o senhor meu pai, Selorico Mendes, dono do São Gregório, e de outras boas e ricas fazendas?…Eu achei graça, acenei que sim: disse que fosse, reproduzisse minha saudação…E então foi que o sêo Habão levantou a cara, aquietado – até mediante sorriso.De sorte que, para corrigir em siso a tranqüilidade daquilo, eu determinei:  – “ O senhor vá logo, logo de rota abatida…E de lá não quero nenhuma resposta…” – enquanto ri, de ver como ele me obedecia expresso, sem necessidade de caráter.

[…] Foi na descida de algumas ladeiras, no se costear um barrocão. Diadorim disse: – “ Estou aqui, te vejo mesmo, Riobaldo.”

Eu disse: “ – Ah, não. Ah, paz!

Ele disse: “ – A uma coisa eu te digo Riobaldo…”

Eu disse: – “ Pois fala”.

Diadorim disse: – a voz dele se paliava: – “Por querer bem é que eu falo, Riobaldo…” – feito um sussurro, nessas veredas, mão mansa, de tardinha, descabelando o buritizal.

Eu disse: – “Vai dizendo!” – ; falei uma segunda palavra.

A testa dele merujava, coisas grossas gotas – mesmo me temesse? – aquele suor devia de se gelar. Aí era um aviso, que ele queria me fornecer?

Aí eu não queria ouvir o que fosse, de repente eu não queria, eu não queria, fiz de ficar indignado.

[…] Aquelas obras, então, Diadorim não visse? Ah, conselho de amigo só merece por ser leve, feito aragem de tardinha palmeando em lume-d’água. O amor dá as costas a toda a reprovação. E era o que Diadorim agora desfazia em mim, no amargoso.

– “Repuno que você está diferente de toda a pessoa, Riobaldo…Você quer dansação e desordem…”

Mexi meu cuspe dentro da boca.

– “…A bem é que falo, Riobaldo, não se agaste mais…E o que está demudando, em você, é o compito da alma – não é razão de autoridade de chefias…”

Diadorim disse, e a voz dele, ecosa, me rodeou; as certas sinceridades. Amizade de amor surpreende uns sinais da alma da gente, a qual é arraial escondido por detrás de sete serras? Aí, demorei.Eu ia aceitar repreensão? Ah, nunca. E, desaguardadamente, eu atinei com outro motivo, para opor: a extratada conversa, que Diadorim tinha tido, com o arrieiro de uma tropa. Perguntei, contra:

– “O segredo, com o velho arrieiro da tropa, Diadorim, que se falaram – -era de minha pessoa?”

[…]  – “Aquele levou um recado meu. Instruí o homem que levasse o recado…”

– “Um recado, de mim? Aí hei, que? Malfiz?!…”

– “Um recado. Mais tu não pergunte, Riobaldo: que, o que fiz, foi.”

– “Sou teu amigo. O recado aquele, Riobaldo, pedi ao arrieiro para dar a uma mulher…”

– “Ah, então foi para uma moça, para a filha do fazendeiro da Santa Catarina, que Otacília é, e que é minha noiva; será?”

[…]  – “Pedi que ela rezasse por você, Riobaldo…Assim pela esperança de saudade que ela tivesse, que não esbarrasse de rezar, o todo tempo, por costume antigo…”

[…] – “Ah,não! Ah, você acha que eu careço de suas rezas orações, por minha ajuda, Diadorim?”

– “Acho, de manhã á noite, Riobaldo…Demais. Nem sei mesmo se alguém te botou o malefício…Tua mãe, mesma que estivesse viva, achava…”

[…] Daí, mesmo, que, certa hora, Diadorim se chegou, com uma avença. Para meu sofrer, muito me lembro. Diadorim, todo formosura.

[…] – “Riobaldo, escuta: vamos na estreitez desse passo…” – ele disse; e de medo não tremia, que era de amor – hoje sei.

– “Riobaldo, o cumprir de nossa vingança vem perto…Daí, quando tudo tiver repago e refeito, um segredo, uma coisa, vou contar a você…”

João Guimarães Rosa