Guimarães Rosa – Grande sertão: veredas XVI
[…] Ao que, por isso não tardamos; não tivessem a primeira notícia da agente. Não se tomou nem um dia de fôlego. A trote e a chouto, vencemos uma grande noite – e demos lá, no luzir d’alva.Abarcamos as condições do lugar; e, cerco, entendidos uns com uns, por meio de avisos:que eram canto de acua e assovio de macaco. Porque sempre eles deviam de ter alguns curimbabas na defesa: capangas e carabinas. Daí só se esperou o listrar da primeira barra e a ponta da manhã estremecente. Segundo nosso uso. Demos fogo.
[…] De seguida, tochamos fogo na casa, pelos quinze cantos mortos. Armou incendião: queimou, de uma vez, como um pau de umburana branca…E de lá saímos, quando o fogo rareou, tardezinha. E, na manhã que veio, acampo-se em beira d’água de sossego. A gente transpassava de cansaços, e sobra de sono. Mas, trazida presa, já em muito nosso poder, estava a merecida, que se queria tanto – a mulher legal do Hermógenes.
[…] E foi, de repente, ele se chegou com esta, que não se esperava por barato nem caro: – Que a nhã senhora, aquela suplicava o favor dum particular com o moço chamado Reinaldo…
[…] Diadorim não vinha, não dava de sair do qurto do oratório. E, quando foi que veio, não me contou nada. O que disse, comum: – “Ah, ela só chorou mágoas…” Não perguntei passo. Devido que não perguntei logo à primeira, depois foi não ficando bem, para o meu brio, o perguntar. Diadorim se atarantava quieto, nem não era correto o que ele estava fazendo – escondendo fatos.Palavras que vieram a gume em minha boca, foram estas: – Que eu não gostava de hipocrisias…Pensei, e não disse. Eu podia duvidar das ações de Diadorim? Lá ele alguma criatura para traição? Rosmes!Idéia essa eu não aceitei, por plausível nenhum.
[…] E chegamos! Aonde? A gente chega, é onde o inimigo também quer. O diabo vige, diabo quer é ver …A pois! Sincero, senhor: os campos do Tamanduá – tão; o inimigo vinha, num trote de todos, muito sacudido. Se espandongaram…Campos do Tamanduá-tão – -o senhor aí escreva:vinte páginas…Nos campos do Tamanduá-tão. Foi grande batalha.
[…] mas, um homem grande – que como pulou abaixo do cavalo grande, que baleado fora, – alcançou jeito de correr, e encontrou uma cafua, em frente. Entrou de lá, de certo, ia mandar bala. E então nós a gente, todos, desistindo de mais longe perseguir os sobrantes, cercamos por completo aquela choupana, de regular distância, caçando jeito de entricheiramento.Ia ser o terrível. Que quem era, aquele homem? – “Ah, o Ricardão”!
[…] “Sêo Ricardão, o senhor saia para fora” – eu gritei do protegido donde estava.
Ele não dei resposta. Daí: – “Pau de fogo, minha gente!” – eu procedi. Pipocaram. Durante o que, a cafua começava nas últimas. Mas de dentro ninguém não ripositou; nem um tiro,nem. Ele estivesse morto? Não tinha munição? Esperei o engulir em seco três vezes. Daí, regritei: – “Sêo Ricardão, o senhor se saia!”…E ele, no esquisito, respondeu: – “Vou sair!” – com um grito natural, Enérgico, para meu povo, eu ordenei muita paz. E o todo silêncio. Espiei.
Lá acolá, o homem abriu devagar os cacos de porta, Saíu, deu uns passos. Como vinha, alto, chapéu na cabeça, até meio sorridente. Não se esbugalhava. Assim estivesse pensando ia ter julgamento? Achei que. E ele não estava ferido. Caminhou mais. Sendo que – e, aí, foi minha idéia? – ah não; mas vi,que Diadorim, de ódio, ia pular nele, puxar faca. Só fiz fim: num tirte-guarte: atirei, só um tiro. O Ricardão arriou os braços, deu meio corpo, em bala varado. Como no cair, jogou uma sua perna para lá e para lá. Como caiu, se deitou. Se deitou, conforme quase não estivesse sabendo que morria; mas nós estávamos vendo que ele já morto estava.
João Guimarães Rosa