Guimarães Rosa – Grande sertão:veredas XI

[…] – “Mataram Joca Ramiro!…”

Aí estrelasse tudo – no meio ouvi um uivo doido de Diadorim – : todos os homens se encostavam nas armas. Aí, ei, feras! Que no céu, si ouvi quieto, só um moído de nuvens. Se gritava – o araral. As vertentes verdes do pindaibal avançassem feito gente pessoas. Titão Passos bramou as ordens. Diadorim tinha caído quase no chão, meio amparado a tempo por João Vaqueiro.

Caiu, tão pálido como cera do reino, feito um morto estava. Ele, todo apertado em seus couros e roupas, eu corri, para ajudar. A vez de ser um desespero. O paspe pegou uma cuia d’água, que com os dedos espriçou nas faces do meu amigo. Mas eu nem pude dar auxílio: mal ia pondo a mão para desamarrar o colete – jaleco e Diadorim voltou a seu si, num alerta, e me repeliu muito feroz.Não quis apoio de ninguém, sozinho se sentou, se levantou. Recobrou as cores, e em mais vermelho o rosto, numa fúria, de pancada. Assaz que os belos olhos dele formavam lágrimas. Titão Passos mandava, o Gavião – Cujo falava. Assim os companheiros num estupor. Ao que não havia mais chão, nem razão, o mundo nas juntas se desgovernava.

– “Repete, Gavião!”

– “Aí chefe, ai chefe: que mataram Joca Ramiro…

– “Quem? Adonde? Conta!”

[…] – “O Hermógenes…Os homens do Ricardão…O Antenor…Muitos…”

[…] Mas Titão Passos, de arrompe, atalhou a narração, ele agarrou Gavião – Cujo pelos braços:

– “Hem, dia! Mas quem é que está pronto em armas, para rachar Ricardão e Hermógenes, e ajudar a gente na vingança agora, nas defrontas? Se tem, e ond’é então que estão?

– “Ah, sim chefe. Os todos os outros: João Gonhá, Sô Candelário, Clorindo Campêlo,… João Gonhá pára com porçanheira de homens, na Serra dos Quatis. Aí que ee quem me mandou trazer este aviso…Sô Candelário ainda está para o Norte, mas o grosso dos bandos delese acha nos pertos da lagoa do Boi, em Juramento…Já foi portador para lá. Sendo que se despachou um positivo também para dar parte a Medeiro Vaz, nos Gerais, no lado de lá do Rio…Sei que o sertão pega em armas, mas Deus é grande!”

[…] Deus não devia de ajudar a quem vai por santas vinganças?! Devia. Nós não estávamos forte em frente, com a coragem esporeada? Estávamos. Mas, então? Ah,então: mas tem o Outro – o figura, o morcegão, o tunes, o cramulhão, o dêbo, o carôcho, do pé de pato, o mal encarado, aquele – o que não existe! Que não existe, que não, que não, é o que minha lama soletra.E da existência desse me defendo, em pedras pontudas ajoelhado, beijando a barra do manto de minha Nossa Senhora da Abadia! Ah, só Ela me vale; mas vale por um mar sem fim…Sertão. Se a santa puser mim os olhos, como é que ele pode me ver? Digo isto ao senhor, e digo: mas, naquele tempo, eu não sabia. Como é que podia saber? E foram esses monstros, o sobredito. Ele vem no maior e no menor, se diz o grão tinhoso  e o cão miúdo. Não é, mas finge de ser. E esse trabalha sem escrúpulo nenhum, por causa que só tem um curto prazo. Quando protege, vem, protege com sua pessoa. Montado, mole nas costas do Hermógenes, indicando todo o rumo. Do tamanho dum bago de aí – vim, dentro do ouvido do Hermógenes, por tudo ouvir. Redondinho no lume dos olhos do Hermógenes, para espiar o primeiro das coisas. O Hermógenes que  – por valente e valentão – para demais até  ao fim deste mundo e do juízo final se danara, oco de alma. Contra ele a gente ia. Contra o demo se podia? Quem a quem? Milagres tristes desses também se dão. Como eles conseguiram fugir das unhas da gente, se escaparam – o Ricardão e o Hermógenes  – os Judas.

[…] Naquele trecho, também me lembro, Diadorim se virou pra mim – com um ar quase de meninozinho, em suas miúdas feições.

– “Riobaldo, eu estou feliz!…” ele me disse. Dei um sim completo. E foi assim que a gente principiou a tristonha história de tantas caminhadas e vagos combates, e sofrimentos, que já relatei ao senhor, se não me engano até o ponto em que Zé Bebelo voltou, com cinco homens, descendo o Rio Paracatú numa balsa de talos de buriti, e herdou brioso comando; e o que debaixo de Zé Bebelo fomos fazendo, bimbando vitórias, acho que eu disse até um fogo que demos, bem dado e bem ganho, na Fazenda São Serafim, o senhor então já sabe.

João Guimarães Rosa