Guimarães Rosa – Grande sertão:veredas IX

[…] Joca Ramiro era um imperador em três alturas! Joca Ramiro sabia o se ser, governava; nem o nome dele não podia atôa babujar. E aqueles outros: o Hermógenes e o Ricardão? Sem Joca Ramiro, eles num átimo se desaprumavam, deste mundo desapareciam – valiam o que pulga pula. O Hermógenes? Certo, um bom jagunço, cabo de turma, mas desmerecido de situação política, sem tino nem prosápia. E o Ricardão, rico, dono de fazendas, somente vivia pensando em lucros, querendo dinheiro e ajuntando.

[…] Terrível tido, por causa da ligeireza com que aquilo veio. Surpresa a gente sempre tem, o senhor sabe, mesmo em espera: dá a vez, e não se vê, à parva. Não de crê que é. Tão de repente. O vento vinha bom, da parte d’eles chegarem, de formas que o galope pronto se ouviu. Escoramos as armas. Assim que eles eram uns vinte. Passaram o ribeirão, com tanta pressa, que a água se esguichou farta, vero bonito aquilo no sol. Demos fogo.

Do que se podia suceder. Vi homem despencando demais, os cavalos patatrás! Dada a desordem. Só cavalo sozinho podia fugir, mas os homens no chão, no cata, cata. Ao que a gente atirava! Se morria, se matava, matava? Os cavalos, não. […] As balas rachavam as pedras, só partiam escalhas, Um se mostrou, caiu logo. Munição deles era pouca. Fugir mesmo, não podiam. A gente atirava. Aí deviam de ser uns seis – que é a meia dúzia – “Aoê, sabe quem está lá comandando?” – o rastejador Roque me disse.  – “Sabe quem?” Ah, eu sabia. Eu tinha sabido, o em desde o primeiro momento. Era quem eu não queria para ser. Era Zé Bebelo!

Assim eu condenado a matar.

[…] Digo ao senhor: eu gostava de Zé Bebelo. Redigo – que eu menos atirava do que pensava. Como era possível assim, com minha ajuda, a morte dele? Um homem daquela qualidade, o corpo dele, a idéia dele, tudo o que eu sabia e conhecia. Nessas coisas eu pensei. Sempre – Zé Bebelo – a gente tinha que pensar. Um homem, coisa fraca em si, macia mesmo, aos pulos de vida e morte, no meio das duras pedras. Senti em minha goela. Aquela culpa eu carregava? Arresto gritei: – “ Joca Ramiro quer esse homem vivo! Joca Ramiro quer esse homem vivo! Joca Ramiro faz questão!…” A que nem não sei como tive o repente de isso dizer  – falso, verdadeiro, inventado…

Firme gritei, repeti.

[…] O que vi foi Zé Bebelo aparecendo, de repente, garnizé. O que ele tinha numa mão, era o punhal, na outra uma garrucha grande, fogo central. Mas descarregou a garrucha, atirando no chão, perto dos pés dele, mesmo. Arrancou poeira. Por trás daquela poeira ele reapareceu, dava pensamento assim, – aprumado, teso de briga. Lampejou com o punhal e esperou. Ele mesmo estava querendo morrer à brava, depressamente. Olhei, olhei. De atirar nele, de todo jeito não tive coragem. Ah, não tinha! E um dos nossos, não sei quem, jogou o laço. Zé Bebelo mal ainda bateu com um pé, por se firmar, e caiu, arrastado, voz que gritou:- “Canalha! Canalha”! Mas todos foram nele, desarmaram do punhal. Eu parei quieto, vago, se me estranho. Não queria, ah não queria que ele me reconhecesse.

[…] Tinha sido aquilo: Joca Ramiro chegando, real, em seu alto cavalo branco, e defrontando Zé Bebelo a pé, rasgado e sujo, sem chapéu nenhum, com as mãos amarradas atrás, e seguro por dois homens. Mas, mesmo assim, Zé Bebelo empinou o queixo, inteirou de olhar aquele, cima a baixo. Daí disse:

– “Dê respeito, chefe. O senhor está diante de mim, o grande cavaleiro, mas eu sou seu igual. Dê respeito!”

– “O senhor se acalme. O senhor está preso…” – Joca Ramiro respondeu, sem levantar a voz.

Mas, com surpresa de todos, Zé Bebelo também mudou de toada, para debicar, com um engraçado atrevimento:

– “Preso? Ah, preso… Estou, pois sei que estou. Mas, então, o que o senhor vê não é o que o senhor vê compadre: é o que o senhor vai ver…

– “Vejo um homem valente, preso…” aí o que disse Joca Ramiro, disse com consideração.

– “Isso. Certo. Se estou preso… é outra coisa.

– “O que, mano velho?”

– “É…, é o mundo à revelia!…”- isso foi o que fecho do que Zé Bebelo falou. E todos os que ouviram deram risadas.

[…] E ia ter o julgamento.

João Guimarães Rosa