Guimarães Rosa – Grande sertão:veredas VII
[…] Mas, um dia – de tanto querer não pensar no princípio disso, acabei me esquecendo quem – me disseram que não era à toa que minhas feições copiavam retrato de Selorico Mendes. Que ele tinha sido meu pai! Afianço que, no escutar, em roda de mim o tonto houve – o mundo todo me desproduzia, numa grande desonra. Pareceu até que, de algum encoberto jeito, eu daquilo já sabia. Assim já tinha ouvido dos outros , aos pedacinhos, ditos e indiretas, que eu desouvia. Perguntar a ele, fosse? Ah, eu não podia não. Perguntar a mais pessoa alguma; chegava. Não desesquentei a cabeça. Ajuntei meus trens, minhas armas, selei um cavalo, fugi de lá. Fui até na cozinha, conduzi um naco de carne, dois punhados de farinha no bornal. Achasse algum dinheiro à mão, pegava; disso eu não tinha nenhum escrúpulo. Virei bem fugido. Toquei direto para o Curralim.
[…] Ia para a escola de Mestre Lucas. […] E, quando Mestre Lucas me perguntou se eu vinha era de passeata, ou de recado da fazenda, expliquei que não: que eu tinha merecido licença de meu padrinho, para começar a vida própria em Curralinho ou adiante, a fito de desenvolver mais estudos e apuramento só de cidade. Dizendo o que disse, eu mesmo jurava que Mestre Lucas não ia acreditar. Mas acreditou, até melhor. Sabe o senhor por quê? Porque, naquele dia, justo, ele estava remexido no meio de um assunto, que preparava o desejo dele para aí me acreditar. Digo: ele me ouviu, e disse:
– “Riobaldo, pois você chega em feita ocasião!”
Aí me explicou: um senhor, no Palhão, na fazenda Nhanva, altas beiras do Jequitaí, para o ensino de todas as matérias estava encomendando um professor.
[…] E era vistosa fazenda assobradada, com grandes currais e um terreirão. Vi logo o dono.
[…] Ah – oh – ah, o destempo de estar sendo debochado se irou em mim. Esbarrei também. Me fiz mouco. Mas ele veio para mim, então, saudou, com um modo sensato de simpatia. Adiado eu disse: – “ Sou moço professor…” A alegria dele, me ouvindo, foi estupefacta. Me ferrou do braço, com porção de falas e agrados, subiu a escada comigo, me levou para um quarto, lá dentro, ligeiro, parecia até que querendo me esconder de todos. Uma doidice, de que? Ah, mas ah – esse que era – o homem? Zé Bebelo. Afixe de fato, tudo nele, para mim, tirava mais para fora uma real novidade.
[…] Certo. Me deu um abraço, me gratificou em dinheiro, me fez firmes elogios – “Siô Baldo, já tomei os altos de tudo! Mas carece de você não ir s’embora , não, mas antes prosseguir sendo o secretário meu… Aponto que vamos por esse Norte, por grandes fatos, que você não se arrependerá…” – me disse – “ … Norte, más bandas” . Soprou, só; enche que ventava.
[…] – “ Somente que eu tiver feito, siô Baldo, estou todo: entro direito na política!” Antes me confessou essa única sina que ambicionava, de muito coração: e era de ser deputado. Pediu segredo, e eu não gostei. Porque eu estava sabendo que todos já aventavam aquela toleima, por detrás dele até antecipavam alcunha: “ o Deputado”…
[…] Mas Zé Bebelo me mandou: – “ Tem paciência, você espera, para reunir os municipais do lugar e fazer discurso, logo que um estafeta vier relatar qual foi nossa primeira vitória…”
Se deu, o que disse. Só que, em vez de estafeta, a galope, veio Zé Bebelo mesmo. Eu tinha ficado com ruma de foguetes, para soltar, e foi a festa. Zé Bebelo mandou dispor uma tábua por cima de um canto de cerca, conforme ali subiu e muito falou.Referiu. Para lá do Rio Pacu, no município de Brasília, tinham volteado um bando de jagunços – com o valentão Hermógenes à testa – e derrotado total. Mais de dez mortos, mais de dez cabras agarrados e presos; infelizmente só, foi que aquele Hermógenes conseguira fugir. Mas que não podia ir longe! Ao que Zé Bebelo elogiou a lei, deu viva ao governo, para perto prometeu muita coisa republicana.
[…] Se travou. Tiro estronda muito, no meio do cerrado: se diz que é estampido, que é ribombo. Tive noção de que morreram bastantes. Vencemos. Não desci de meu animal. Nem prestei, nem estive, no fim, como o galope se desabriu: os homens perseguindo uns , que com o mesmo Ricardão se escapavam. Mas mais não se aproveitou, o Ricardão já tinha tido fuga. Então os nossos de jeriza, com os oito prisioneiros feitos queriam se concluir – “Eh, de jeito nenhum, êpa! Não consinto covardias de perversidade!” – Zé Bebelo se danou. Apreciei a excelência dele, no sistema de não se matar.
[…] Fugi. De repente, eu vi que não podia mais, me governou um desgosto. Não sei se era porque eu reprovava aquilo: de se ir, com tanta maioria e largueza, matando e prendendo gente, na constante brutalidade. Debelei que descuidassem de mim, restei escondido retardado. Vim – me. Isso que, pelo ajustado, eu não carecia de fazer assim. Podia chegar perto de Zé Bebelo, desdizer: – “ Desanimei, declaro de retornar para o Curralim…” Não podia?Mas, na hora mesma em que eu a decisão tomei, logo me deu um enfaro de Zé Bebelo, em trosgas, a conversação. Nem eu não estava para ter confiança nenhuma em ninguém. A bem: me fugi, e mais não pensei exato. Só isso. O senhor sabe, se desprocede: a ação escorregada e aflita, mas sem sustância narrável.
João Guimarães Rosa