Guimarães Rosa – Grande sertão: veredas XVIII

[…] Na morna, baqueei, não podendo mais. Me levaram, por primeiro, de revêxo. Depois me botaram para dentro duma casa muito pobre. Desembestei doente. Po último, como perdi mei conhecimento, estavam me deitanto num catre.

Que foi febre-tifo, se diz, mas trelada com sezão, mas sezão forte especial – nas altíssimas!

[…] Mas quando dei acordo de mim, sarando  e conferindo o juízo, a luz sem sol, mire e veja, meu senhor, que eu não estava mais no asilo daquela casinha pobre, mas em outra, numa grande fazenda, para onde sem eu saber tinham me levado.

Eu estava na Barbaranha, no Pé de Pedra, hóspede de seo Josafá Ornelas.

[…] Mas aquele seo Ornelas era homem de muita bondade, muita honra. Ele me tratou com categoria, fui príncipe naquela casa.[…] Mas o que mormente me fortaleceu, foi o repetido saber que eles pelo sincero me prezavam, como talentoso homem de bem, e louvavam meus feitos: eu tivesse vindo, corajoso, para derrubar o Hermógenes e limpar estes Gerais da jagunçagem.

[…] Até que, um dia, eu estava repousando, no claro estar, em rede de algodão rendada. Alegria me espertou, um pressentimento. Quando eu olhei, vinha vindo uma moça, Otacília.

[…] Mas eu disse tudo. Declarei muito verdadeiro e grande o amor que eu tinha a ela; mas que, por destino anterior, outro amor, necessário também, fazia pouco eu tinha perdido. O que confessei. E eu, para nojo e emenda, carecia de uns tempos. Otacília me entendeu, aprovou o que eu quisesse.Uns dias ela ainda passou lá, me pagando companhia, formosamente.

Ela tinha certeza de que eu ia retornar à Santa Catarina, renovar; e trajar terno de sarjão, flor no peito, sendo o da festa de casamento. Eu fui, com o coração feliz, por Otacília eu estava apaixonado. Conforme mecasei, não podia ter feito coisa melhor, como até hoje ela é muito minha companheira – o senhor conhece, o senhor sabe. Mas isto foi tantos meses depois, quando deu o verde nos campos.

Eu já estava de todo bom, firme para as arremessadas, quando ali na Barbaranha se surgiu para mim igualmente a visita de seo Habão – ele com seo Ornelas se tivessem entre tempos pacificado.[…] Mas ele portava causa maior –  a que tinha ido confirmar a saber, e agenciar, por seus bons préstimos. E era que meu padrinho Selorico Mendes acabara falecido. Me abençoando e se honrando, orgulhoso de meus atos; e as duas maiores fazendas ele tinha deixado para mim, em cédula de testamento.

[…] Pois, primeiro, eu tinha outra andada que cumprir, conforme a ordem que meu coração mandava. Tudo agradeci, dei a despedida, ao seo Ornelas e os dele – gente do evangelho. Saí somente com o Alaripe e o Quipes, os outros deixei à espera de minha volta, que, por muita companhia numerosa, de nós não cobrassem duvidado.mas, antes de sair, pedi à dona Braziliana uma tira de pano preto, que pus de funo no meu braço.

Aonde fui, a um lugar, nos gerais de Lassance, Os Porcos. Assim lá estivemos. A todos eu perguntei, em toda porta bati; triste pouco foi o que me resultaram. O que pensei encontrar: alguma velha, ou um velho, que da história soubessem – dela lembrados quando tinha sido menina – e então a razão rastraz de muitas coisas haviam de poder me expor, muito mundo. Isso não achamos. Rumamos daí então para bem longe reato: Juramento, o Peixe- cru, Terra Branca e Capela, a Capelinha do Chumbo. Só um letriro eu achei. Este papel, que eu trouxe – batistério. Da matriz de Itacambira, onde tem tantos mortos enterrados.Lá ela foi levada à pia. Lá registrada, assim. Em um 11 de setembro da era de 1800 e tantos… O senhor lê. De Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins – que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar,sem gozo de amor…Reze o senhor por essa minha alma. O senhor acha que a vida é tristonha?

[…]Mas, então, quando se estava de volta, m’emobra vindo, peguei uma inesperada informação, na Barra do Abaeté. De Zé Bebelo! Tinha mesmo de ser. Não sei por que foi, que com aquilo me renasci. Que Zé Bebelo estava demorando léguas para cima, perto do São Gonçalo do Abaeté, no Porto Passarinho.

[…] Zé Bebelo gritou: – “Safa!Safas…” e me abraçou como amigo cordial, contente de muito me ver, constante se nada tivesse destruído o nosso costume. Conto que estava o mesmo,aposto e condinzente.

– “Tudo viva!, Riobaldo, Tatarana, Professor…” – ele concisou. “Tu quis paz?”

[…]  – “Há-te! Acabou com o Hermógenes? A bem. Tu foi meu discípulo…Foi não foi?”

Deixei: ele dizer, como essas glórias não me invocaram. Mas, então, ele não me entendendo, esbarrou e se pôs. Cujo:

– “A bom, eu não te ensinei; mas bem te aprendi a saber certa a vida…”

Eu ri, de nós dois.

[…]  – “Riobaldo, eu sei a amizade de que agora tu precisa. Vai lá. Mas, me promete: não adia, não desdenha! Daqui, e reto, tu sai e vai lá. Diz que é de minha parte…Ele é diverso de todo o mundo.”

Mesmo escreveu um bilhete, que eu levasse. Ao quando despedi, e ele me abraçou, senti o afeto em ser de pensar. Será que ainda tinha aquele apito na algibeira? E gritou: – “Safas”- -;máxime.

Tinha de ser Zé Bebelo, para isso. Só Zé Bebelo, mesmo, para mei destino começar a salvar. Porque o bilhete era para o Compadre meu Quelemém de Góis, na Jijuã – Vereda do Buriti Pardo.

[…] Compadre meu Quelémem me hospedou, deixou meu contar minha história inteira. Como vi que ele me olhava com aquela enorme paciência – calma de que minha dor passasse; e que podia esperar muito longo tempo. O que vendo, tive vergonha, assaz.

Mas, por fim, eu tomei coragem, e tudo perguntei:

– “ O senhor acha que a minha alma eu vendi, pactário”?!

Então ele sorriu, o pronto e sincero, e me vale me respondeu:

– “ Tem cisma não. Pensa para diante. Comprar ou vender, às vezes, são as ações que são quase iguais…”

E me cerro, aqui, mire e veja. Is não é o de um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que fui e vi, no levantar do dia.Auroras.

Cerro. O senhor vê. Conteitudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece é um pau grosso, em pé, enorme…Amável o senhor me ouviu, minha ideia confirmou: Que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for…Existe é o homem humano.Travessia.

João Guimarães Rosa