Guimarães Rosa – Grande sertão:veredas IVX

[…] Mas em tanto, com as mudanças e peripécias, no afinco de tudo lhe referir, ditas conforme digo – não toco no nome de Otacília? Nela eu queria pensar na ocasião. Mas mal que, cada vez, achava mais custoso. A ser que se nublando a substância da recordação, a esquecida formosura. Assim a nossa conversação de amor, lá na Santa Catarina, não consistisse mais do que em uma história alheia, escutada de outra pessoa contar. Sei que eu queria uma saudade. Para isso rezei a todas as minhas Nossas Senhoras sertanejas. Mas, rebotei de lado aquelas orações, na água fina e no ar dos ventos. Elas, era feito eu lavrasse falso, não me davam nenhuma cortesia. Só um vexame, de minha extração e de minha pessoa: a certeza de que o pai dela nunca havia de conceder o casamento, nem tolerar meu remarcado de jagunço, entalado na perdição, sem honradez costumeira. As quantias por paga! O senhor entende, o que eu conto assim é resumo; pois, no estado do viver, as coisas vão enqueridas com muita astúcia: um dia é todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação. Mas, eu achei aí a possibilidade capaz, a razão. A razão maior era uma. O senhor não quer o senhor não está querendo saber?

[…] A encruzilhada era pobre de qualidades dessas. Cheguei lá, a escuridão dão. Talentos de lua escondida. Medo? Bananeira treme de todo lado. Mas eu tirei de dentro do meu tremor as espantosas palavras. Eu fosse um homem novo em folha. Eu não queria escutar meus dentes. Desengasguei outras perguntas. Minha opinião era de ferro? Eu podia cortar um cipó e me enforcar pelo pescoço, pendurado, morrendo daqueles galhos: quem é que quem me empedia? Eu não ia temer.O que eu estava tendo era o medo de que ele estava tendo de mim! Quem é que era o Demo, o Sempre – Sério, o Pai da Mentira? Ele não tinha carnes de comida da terra, não possuía sangue derramável. Viesse, viesse, vinha para me obedecer. Trato? Mas trato de iguais com iguais,. Primeiro, eu era que dava a ordem. E ele vinha para supilar o ázimo do espírito da gente? Como podia? Eu era eu – mas mil vezes – que estava ali, querendo, próprio para afrontar relance tão demarcado. Destes meus olhos esbarrarem num rôr de nada.

[…] – “Lúcifer! Lúcifer!…” – aí eu bramei, desengolindo.

Não. Nada. O que a gente tem é vozeio dum ser só –  que principia feito grilos e estalinhos, e o sapo – cachorro, tão arranhão. E que termina num queixume borbulhado tremido, de passarinho ninhante mal- acordado dum totalzinho sono.

– “Lúcifer! Satanás!…”

Só outro silêncio. O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.

– “Ei Lúcifer! Satanás dos meus infernos!”

Voz minha se estragasse, em mim tudo era cordas e cobras. E foi aí. Foi. Ele não existe, e não apareceu nem respondeu – que é um falso imaginado. Mas eu supri que ele tinha me ouvido. Me ouviu, a conforme a ciência da noite e o ouvir de espaços, que medeia. Como que adquirisse minhas palavras todas; fechou o arrocho do assunto. Ao que eu recebi de volta em adejo, um gozo de agarro, dái umas tranqüilidades – de pancada. Lembrei de um rio que viesse adentro da casa de meu pai. Vi as asas, arquei o puxo do poder meu, naquele átimo. Aí podia ser mais? A peta, eu quere saldar: que isso não é falável. As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca. Cabem é o brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas.

[…] Nos começos, aquilo bem que eu achei esquipático. Mas com o seguinte, vim aceitando esse regime, por justo, por normal, assim. E fui vendo que aos poucos eu entrava numa alegria estrita, contente com o viver, mas apressadamente. A dizer, eu não me afoitei logo de crer nessa alegria direito, como que o trivial da tristeza pudesse retornar. Ah, voltou não; por oras, não voltava.

[…] Quando, então, trouxeram reunidos todos os animais, estavam ajuntando, e eles e redondeavam no aprazível – tropilha grande, pondo poeira, dado o alvoroço de muitos cascos. Fiz um rebuliz? Dou confesso que foi: era de mim que eles estavam espantados. Aí porque a cavalaria me viu chegar, e se estrepoliu. O que é que cavalo sabe? Uns deles rinchavam de medo; cavalo sempre relincha exagerado. Ardido naquele nitrite riso fininho, e, como não podiam se escapulir para longe, que uns suavam,e que já escumavam e retremiam, que com as orelhas apontavam. Assim ficaram, mas murchando e obedecendo, quando, com uma raiva tão repentina, eu pulei para o meio deles: – “Barzabú1 Aquieta, pus a mão no lombo dum, que emagreceu a vista, encurtando e baixando a cabeça, arrufava a crina, conforme terminou o bufo de bufôr.

[…]  – “ Quem é que é o Chefe? – eu quis.

Se quis, foi com muita serenidade. Zé Bebelo retardou. Eu social, encostado. Conheci que ele tardava e pensava, para ver o  que fazer mais vagarosamente.

– “Quem é que?” – eu brando apertei.

Eu sabia do respirar de todos. Durasse mais, aquilo eu já largava, por me cansar, por estar achando cacete. Minha vontade estróina de paliar; – Seu Zé Bebelo, velho tu me desculpe… – eu calei. Zé Bebelo se encolheu um pouco, só. Aí ele não tremeu, no sucinto dos olhos.

– “ A rente Riobaldo! Tu o chefe, chefe é: tu o Chefe fica sendo…Ao que vale! – ele dizendo fortemente, mesmo mudado em festivo. Gloriando um fervor. Mas eu temi que ele chorasse. Antes, em rosto de homem e de jagunço, eu nunca tinha avistado tantas tristezas.

– “ Sendo vós companheiros…”  –  eu falei para em volta. Tantos, tantos homens os nos rifles,e els me aceitavam. Assim aprovaram. O Chefe Riobaldo. Aos gritos, todos aprovaram. Rejuravam, a  pois. A esses resultados. No que eram com solenidade, sinceridade. Tudo dado em paz.

[…] Ao fim, depois que João Gonhá me aprovou, revi os aspectos de Zé Bebelo. Acertar com ele.

– “ O senhor, agora…” eu quis dizer.

– “Não Riobaldo…” – ele me atalhou – “Tenho de tanger urubu, no m’bora. Sei não ter terceiro, nem segundo. Minha fama de jagunço deu final…”

Dái, riu, e disse, mesmo cortês:

– “Mas, você é outro homem, você revira o sertão…Tu é terrível, que nem um urutú branco”.

O nome que ele me dava, era um nome, rebatismo desse nome, meu. Os todos ouviram, romperam em risos. Contando logo gritavam, entusiasmados;

– “ O Urutú Branco!, Ei, o Urutú Branco!…”

João Guimarães Rosa