Guimarães Rosa – Grande sertão: veredas IV

[…] Diadorim dizia. – “Não posso ter alegria nenhuma, nem minha mera vida mesma, enquanto aqueles dois monstros não forem acabados…” E ele suspirava de ódio, como se fosse por amor; mas, no mais, não se alterava. De tão grande, o dele não podia mais ter aumento: parava sendo um ódio sossegado. Ódio com paciência; o senhor sabe?

[…] “Quem vai ficar em meu lugar, Quem capitaneia?…” Com a estrampeação da chuva, os poucos ouviram. Ele só falava por pedacinhos de palavras. Mas eu vi que o olhar dele esbarrava em mim, e me escolhia. Ele avermelhava os olhos? Mas com o cirro e o vidrento. Coração me apertou estreito. Eu não queria ser chefe! “Quem capitaneia…” Vi meu nome no lume dele. E ele quis levantar a mão para me apontar. As veias da mão… Com que luz eu via? Mas não pôde. A morte pôde mais. Rolou os olhos; que ralava no sarrido. Foi dormir em rede branca. Deu a venta.

[…] Mas: aquele homem, para que o senhor saiba, – aquele homem: era Zé Bebelo. E na noite, ninguém não dormiu direito, em nosso acampo. De manhã, com uma braça de sol ele chegou. Dia da abelha branca.

De chapéu desabado, avantes passos, veio vindo, acompanhado de seus cinco cabras. Pelos modos, pelas roupas, aqueles eram gente do Alto Urucúia. Catrumanos dos “gerais”. Pobres, mas atravessados de armas, e com cheias cartucheiras. Marcelino Pampa caminhou ao encontro dele; seguinte de nosso comandante, nós formávamos. Valia ver. Essas cerimônias.

– ”Paz e saúde, chefe! Como passou?”

– “Como passou mano?

Os dois grandes se saudavam. Aí Zé Bebelo reparou em mim: – Professor, ara viva! Sempre a gente tem de se avistar…” De nomes e caras de pessoas ele em tempo nenhum se esquecia. Vi que me prezava cordial, não me dando por traidor nem falso.Riu redobrado. De repente, desriu. Refez pé para trás.

– Vim de vez! – ele disse; disse desafiando, quase.

­- “Em boa veio , chefe! É o que todos aqui representamos…”

– Marcelino Pampa respondeu.

– “A pois, Salve Medeiro Vaz!…”

– “ Deu com ele, amigo. Medeiro Vaz ganhou repouso…”

– “Aqui soube. Lux eterna…” – e Zé Bebelo tirou o chapéu e se persegnou, parando um instante sério, num ar de exemplo, que a gente até se comoveu. Depois disse:

– “Vim cobrar pela vida de meu amigo Joça Ramiro, que a vida em outro tempo me salvou da morte… E liquidar com esses dois bandidos, que desonram o nome da Pátria e este sertão nacional! Filhos da égua…” – e ele estava com raiva tanta , que tudo quanto falava ficava sendo verdade.

[…] Vez de Marcelino Pampa dizer:

– “ Pois assim amigo, por que é que não combinamos nosso destino? Juntos estamos, juntos vamos.”

– “ Amizade e combinação, aceito, mano velho. Já, ajuntar, não. Só obro o que muito mando; nasci assim. Só sei ser chefe.”

Sobre curto, Marcelino Pampa cobrou de si suas contas. Repuxou testa, demorou dentro dum momento. Circulou os olhos em nós todos, seus companheiros, seus brabos. Nada não se disse. Mas ele entendeu o que cada vontade pedia. Depressa deu o costumado:

– “ E chefe será. Baixamos nossas armas, esperamos vossas ordens…”

João Guimarães Rosa