Guimarães Rosa – Grande sertão:veredas XII

[…] O senhor sabe o mais que é, de se vagar sertão rumo sem termo, amanhecendo cada manhã num pouso diferente, sem juízo de raiz? Não se tem onde se acostumar os olhos, toda firmeza se dissolve. Isto é assim. Desde o raiar da aurora, o sertão tonteia.

[…] À fazenda dos tucanos chegamos, lá esbarramos – é na beira da Lagoa raposa, passada a Vereda do Enxú, visitamos o fazendão vazio, não tinha almaviva de se ver. E do Rio Chico longe não se estava  A gente nos Tucanos ia falhar dois dias, ali ficamos comendo palmito e secando em sol a carne de dois bois.

[…] Deram um tiro, de rifle, mais longe. O que eu soube, sempre sei quando um tiro é um tiro – isto é – quando outros vão ser.

[…] As tantas o senhor assistisse àquilo: uma confusão sem confusão. Saí da janela, um homem esbarrou em mim, em carreira, outros homens bramaram. Outros? Só Zé Bebelo – as ordens, de sobre voz. Aonde, o que? Todos eram mais ligeiros do que eu? Mas ouvi: -“Mataram o Simião…” Simião? Perguntei: – “ E o Doristino?” “ – Ãã Homen, não sei…” – alguém me respondendo – “Mataram o Simião e o Aduvaldo…” E eu ralhei: – “Basta!” Mas,sobre o instante virei: – Ah, e o Fafafa?” o que ouvi: – “Fafafa, não está é matando!…Assim era, real verdadeiramente de repente, caído como chuva: o rasgo de guerra, inimigos terríveis investindo. – “São eles, Riobaldo, os hermógenes!”  – Diadorim aparacido ali, em minha frente, isto falou.

[…] Ali era um quarto, pequeno, sem cama nenhuma, o que se via era uma mesa. […] Dentro daquele quarto, como que não entrava a guerra. Mas o pensar de Zé Bebelo – ansiado eu sabia – era coisa que estralejava, inventante e forte.

– “Mais antes larga o rifle aí, deposita…” – ele falou. O depor meu rifle? Pois, botei em cima da mesa, esquinado de través, botei com todo cuidado. Ali se tinha lápis e papel. – “Senta mano…” – ele, pois ele. […] Zé Bebelo de revólver pronto na mão, mas que não contra mim – o revólver era o comando, o constante revirar e remexer da guerra. E ele nem me olhou, e disse:

– “Escreve…”

[…] – “Ei, ai, vamos ver; Que tenho esquadrão reiúno: esses é vão vir me dar retaguarda!” – ele falasse. Eu escrevesse, com mais urgência. Os bilhetes – missiva para o senhor oficial comandante das forças militares, outro com o excelentíssimo juiz da comarca de São Francisco, outro para o presidente a câmara de Vila Risonha, outro para o promotor.- “ Apresta. A massa do volume deles também dá valor…” – ele regendo. Acertei. Escrevi. O teor era aquilo mesmo, o simples: que se os soldados no flagrante viessem, de rota abatida, sem esperdiçar minuto, então aqui na fazenda dos tucanos pegavam caça grossa, reunida – de lobo, jaguatirica e onça – de toda a jagunçada maior reinante no vezvez desses gerais. A rasa, á justa e cerrar com fecho formal. Ordem e progresso, viva a Paz e a Constituição da Lei! Assinando José Rebelo Adro Antunes, cidadão e candidato.

[…] E entreguei o escrito a Zé Bebelo – minha mão não espaguiu nenhum tremor. O que regeu em mim foi uma coragem precisada, em desprezo de dizer; o que disse;

– “ O senhor chefe, o senhor é amigo dos soldados do governo…”

E ri um sorriso escárneo, direitinho ri;para me constar assim, que de homem ou de chefe nenhum tinha medo e ele se assustou , fez espantos.

Ele disse – “Tenho amigo nenhum, e soldado não tem amigo…”

[…] Mas, no sobrevento, o Cavalcanti exclamou;

– “Estão matando os cavalos!…”

Arre e era. Aí lá cheio o curralão, co a boa animalada nossa, os probres cavalos, que não tinham culpa de nada; e eles, cães aqueles, sem temor de Deus nem justiça de coração, se viravam para judiar e estragar, o rasgável da alma da gente – e no vivo dos cavalos, a torto e direito, fazendo fogo!

[…] O Fafafa chorava. João vaqueiro chorava. Como a gente toda tirava lágrimas. Não se podia ter mão naquela malvadez, não havia remédio. À tala, eles, s hermógenes, matavam conforme queriam, a matança por arruinar. Atiravam até no gado alheio, nos bois, nas vacas, tão mansos que, desde o começo, tinham querido vir se proteger mais perto da casa. Onde se via os animais iam amontoando, mal morridos, os nossos cavalos! Agora começávamos a tremer.

[…] Alembrar que tão bonitos, tão bons, inda ora há pouco esses eram, cavalinhos nossos, sertanejos, e que agora estraçalhados daquela maneira não tinham nosso socorro. Não podíamos! E que era qe queriam esses hermógenes? De certo seria tenção deles deixar aqueles relinchos infelizes em roda da gente, dia e noite, noite e dia, dia e noite, para não se agüentar, no fim de alguma hora, e se entrar no inferno?

João Guimarães Rosa