Guimarães Rosa – Grande sertão:veredas VIII
[…] Meu cavalo era bom, eu tinha dinheiro na algibeira, eu estava bem armado. Virei, vagaroso. Meu rumo mesmo era o do mais incerto. Viajei, vim, acho que eu não tinha vontade de chegar em nenhuma parte.Com vinte dias de remanchear , e sem as trapalhadas maiores, foi que me encostei no Rio das Velhas, á vista da barra do Córrego Batistério.
[…] A casa dele – espaçosa, casa de telha e caiada – era na beira, ali onde o rio tem mais crôas.Se chamava Manoel Inácio, Malinácio dito, e geria uns bons pastos, com cavalhada pastando, e os bois.Me deu almoço, me pôs em fala. Eu estava querendo ser sincero. E notei que ele no falar me encarava e no ouvir piscava os olhos; e , quem encara no falar mas pisca os olhos para ouvir, não gosta muito de soldados. Aos poucos então, contei: que dos zé – bebelos não tinha querido fazer parte; o que era a valente verdade. – “E Joca Ramiro?” – ele me perguntou. Eu disse, um pouco por me engrandecer e pôr minha prosa, que já tinha servido Joca Ramiro, e com ele conversado. Que mesmo por isso, é que eu não podia ficar com Zé Bebelo, porque meu seguimento era por Joca Ramiro, em coração em devoção. E falei no meu padrinho Selorico Mendes, e em Aluiz e Alarico Totõe, e de como foi que Joca Ramiro pernoitou em nossa fazenda do São Gregório. Mais coisas decerto eu disse,e aquele homem Malinácio me ouvia, só se fazendo de sossegado. Mas eu percebi que ele não estava. […] Me levou para um quarto, onde tinha um jirau com enxergão, me botou lá à vontade, fechou a porta. Ferrei; abraçado com minhas armas.
[…] Acordei só no aquele Malinácio me chamando para jantar. Cheguei na sala, e dei com outros três homens. Disseram de si que tropeiros eram,e estavam assim parecidos. Mas o Malinácio começou a glosar e reproduzir minha conversa tida com ele – disso desgostei, segredos frescos contados não são para todos. E o arrieiro dono da tropa – que era de cara redonda e pra clara – me fez muita interrogação. Não estive em boas cócoras. Construí de desconfiar.Não do fato d’ele tal encarecer – pois todo tropeiro sempre muito pergunta – ;mas do jeito como os outros dois ajudavam aquele a me ver, de tudo perseverado tomando conta.Ele queria saber para onde eu mesmo me ia além. Queria saber porquê, se eu punia por Joca Ramiro, e estava em armas, por que eu não tinha caçado jeito de trotar para o Norte, a fito de com pessoal ramiros me juntar? […] Quem desconfia, fica sábio: dizendo como pude,muito confirmei; mas confirmei acrescentando que chegara até ali por dar volta cautelosa, e mesmo para sobre ter a calma de resolver os projetos em meu espírito. Ah, mas, ah! – enquanto que me ouviam, mais um homem, tropeiro também, vinha entrando na soleira da porta. Agüentei aquele nos meus olhos, e recebi um estremecer, em susto desfechado. Mas era um susto de coração alto, parecia a maior alegria.
Soflagrante, conheci. O moço tão variado e vistoso, era, pois sabe o senhor quem, mas quem, mesmo? Era o menino! O menino, senhor sim, aquele do porto do de – janeiro, daquilo que lhe contei, o que atravessou o rio comigo, numa bamba canoa, toda a vida. E ele se chegou, eu do banco me levantei. Os olhos verdes, semelhantes grandes, o lembrável das compridas pestanas, a boca melhor bonita, o nariz fino, afiladinho. Arvoamento desses, a gente estatela e não entende; que dirá o senhor, eu contando só assim? Eu queria ir para ele, para abraço, mas minhas coragens não deram. Porque ele faltou com o passo, num rejeito, de acanhamento. Mas, me reconheceu de visual. Os olhos nossos donos de nós dois.sei que deve de ter sido um estabelecimento forte, porque as outras pessoas o novo notaram – isso no estado de tudo percebi. O menino me deu a mão: e o que mão a mão diz é curto; ás vezes pode ser o mais adivinhado e conteúdo; isto também. E ele como sorriu. Digo ao senhor: até hoje para mim está sorrindo. Digo. Ele se chamava Reinaldo.
[…] Logo que o Reinaldo me conheceu e me saudou, não tive mais dificuldade em dar certeza aos outros de minha situação. Ao quase sem sobejar palavras, ele afiançou o meu valimento, para aquele mestre de cara redonda e bom parecer, que passava por arrieiro de tropa e se chamava Titão Passos. De fato, tropeiros não eram, mas pessoal brigal de Joca Ramiro. E a tropa? Essa, que se estava para seguir porquanto pra o Norte, com os três lotes de bons animais, era para levar munição. Nem tiveram mais prevenimento de esconder isso de mim. Aquele Malinácio era o guardador: com as munições bem encobertadas.
[…] A gente, jantou-se, já se estava de saída, para toda viagem. Eu ia com eles. Pois fomos.
[…] – “Riobaldo, pois tem um particular que eu careço de contar a você, e que esconder mais não posso… Escuta: eu não me chamo Reinaldo, de verdade. Este é nome apelativo, inventado por necessidade minha, carece de você não me perguntar por quê. Tenho meus fados. A vida da gente faz sete voltas – se diz. A vida nem é da gente…”
Ele falava aquilo sem rompante e sem entonos, mais antes com pressa, quem sabe se com um tico de pesar e com vergonhosa suspensão.
– “ Você era menino, eu era menino…Atravessamos o rio na canoa…Nos topamos naquele porto. Desde aquele dia é que somos amigos.
Que era eu confirmei e ouvi:
– “ Pois então: o meu nome, verdadeiro, é Diadorim…Guarda este meu segredo. Sempre, quando sozinhos a gente estiver, é de Diadorim que você deve de me chamar, digo e peço, Riobaldo…”
João Guimarães Rosa