«As estâncias consagradas à Ilha dos Amores parecem representar uma contemporização de Censura para com a arte, lavradas como são em puro ouro e mais cristalinas que o cristal, mas em verdade -- escreve Caetano L. de Moura -- na pintura destas delícias o poeta não ofende nenhum sentimento nobre, nem a mera delicadeza.»

«Aqui, só verdadeiros, gloriosos
Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
Fingidos de mortal e cego engano.
Só pera fazer versos deleitosos
Servimos; e, se mais o trato humano
Nos pode dar, é só que o nome nosso
Nestas estrelas pôs o engenho vosso.

Os Lusíadas, X.82«E também, porque a santa Providência,
Que em Júpiter aqui se representa,
Por espíritos mil que têm prudência
Governa o Mundo todo que sustenta
(Ensina-lo a profética ciência,
Em muitos dos exemplos que apresenta);
Os que são bons, guiando, favorecem,
Os maus, em quanto podem, nos empecem;

Os Lusíadas, X.83

«Quer logo aqui a pintura que varia
Agora deleitando, ora ensinando,
Dar-lhe nomes que a antiga Poesia
A seus Deuses já dera, tabulando;
Que os Anjos de celeste companhia
Deuses o sacro verso está chamando,
Nem nega que esse nome preminente
Também aos maus se dá, mas falsamente.

Os Lusíadas, X.84

«De facto as oitavas 82, 83 e 84 do Canto X, que martelam com um tom seco de monitória dogmática o quanto há de fabuloso nos deuses do paganismo, equivalem para todo esse jucundo corpo do Olimpo, que vem confraternizar com os navegantes, à queima dos judas de palha e alcatrão na terça-feira gorda. Não faz sentido que o autor da mágica venha ao proscénio prevenir o respeitável público: tudo isto é endrómina, quando o seu primeiro escopo visa a obter a ilusão da realidade. Assim a grande arte, mormente a da epopeia, talhada ao molde de Homero, que estructura a natureza heróica das suas personagens com actos da vida quotidiana e um irrepreensível e geométrico aprumo.»