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Jan24
I - Jardim das Tormentas. 1913
Manuel Pinto
(...) «O Toiregas conduzira uma vagoneta na linha férrea, depois, vendido a um mascate arrastara uma vida nómada e miserável até cair no mester peneireiro de volver, de Ceca para Meca, missionários e irmãos do S. C. J. Atravessou a balbúrdia de cem mercados, em malta com burros e cavalos, para enfim certo dia seguir por uma interminável estrada fora, à arreata dum lavrador. Ao cabo, vieram os odres, a colmeia tresmalhada dos povos, nos domingos, a face de calhau com musgo do Isidro.
O Contrabandista, esse, perdera a memória dos trancos e barrancos por que passara. Um só, grande como trovoada, lhe ocupava a imaginação. Fora no tempo em que marchava pela calada da noite, atrás do amo, costeando sebes e despenhadeiros povoados de medos. Carrregado a mais não poder, grimpava pelas veredas dos lobos, de mansinho com toda a cautela, sem licença de espirrar nem de acordar o chão.
(...)
Uma noite, descia sorrateiro um passo escorregadio, adiante o dono em alparcatas, de orelha em riste, suspeitoso com o piso e os arbustos que lhe batiam nos olhos. Subitamente, vergastas de fogo e estampidos fuzilaram sobre eles; acudiram homens agaloados de todas as bandas. O amo caía por terra enquanto ele abalava pelo balseiro fora com os peitos abrasados. Apanharam-no adiante e levaram-no para lhe retalhar o corpo, onde sentia lume a lavrar. Aguentou semanas numa estrebaria muito vasta, a par de cavalos ferozes que o mordiam e desprezavam. Depois, quando já se sustinha nas pernas, apareceu um mariolão alto a olhá-lo muito, a palpar-lhe a barriga, a premir-lhe a cicatriz, e levou-o.
Sabia apenas isto, e era este episódio que no silêncio do estábulo contava ao Toiregas, que o admirava e temia, porque era mais corpulento e mau do que ele.
Após tais andanças, haviam adquirido aquela sabedoria em que não fica margem nem para dedicações nem para afrontas. Pouco a pouco, por lenta reacção, tinham chegado à calma indiferença dos mercenários. Por isso não professavam idolatria especial por Isidro, feroz como todos os donos, que lhes punha montanhas sobre o lombo e lhes fazia deitar os bofes nos longos caminhos adormecidos. O amor que lhes encerrava a alma era distribuído entre eles, numa velha estima de seis anos.
O que muito apreciavam em Isidro eram os cantares a meia voz, tão doces como a mãozita dos rapazes quando lhes punham ao focinho uma côdea de pão. Das vezes que ele garganteava 'Anda a guerra no mar Africante' pelas charnecas tristonhas, chegariam a adormecer se a serrilha os não arrepelasse ou o calcanhar não estivesse vigilante. As cantigas embalavam-nos, sobretudo quando, juntos com os machos dos belfurinheiros, marchavam em linha, sonora, santamente, debaixo da lua pascácia ou a virginal pureza das meias manhãs.»...
(continua)
https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693
Mascate — vendedor ambulante de fazendas.
Belfurinheiros — tendeiros, vendedores ambulantes, bufarinheiros.
publicado às 19:01