A complicação, essa condição humana, é pior do que duelo de pavões Affonso Duprat No telhado vizinho, três papagainhos se reúnem pela manhã, conversam entre si, se empoleiram, sem nunca deixar de se bicar, uns mordisquinhos de amor. Não há rolo. Imagino que, naquela tríade, os três machos papagaios, suponho, levam a sério a dádiva que possuem: a sanidade, que nasce junto com as penas esverdeadas que os vestem. Se existe competição no reino dos bicos e penas, é de incumbência de bichos terrenos, como perus, galos e pavões. Estes últimos, agasalhados na última moda do reino animal, correm em círculos, pela falta de talento e intelecto – não falam, não voam, resta a eles se exibirem com suas madeixas hipnóticas. São bonitões, vistosos, mas só grunhem, falta-lhes a palavra que tanto almejam. Resta aos pavões saírem por aí espalhando suas espalhafatosas penas, nada mais. Pavão, o prepotente, e sua trupe de pseudo-aves, as galinhas, ciscam por uns caraminguás, milhos sofridos de espigas ressequidas. A clássica fábula da galinha que queria voar, coisa de cinema, só para Hollywood. Na vida real, o galo canta cedo, aos domingos, há frango na padaria. Cá no mundo dos homens, com seus pavões misteriosos, a perfídia não se difere muito das lições desta fábula. Intrigas emplumadas, onde existiam salamaleques, travestem pombas da paz em aves de rapina. De espreita, silenciosas, as harpias querem dar o bote em quem está por baixo da carne seca. Bafafá? É coisa de vizinho mal amado. Lá naquele telhado só há farra, quando não, percebo que um vai deitar mais para longe. Pede tempo, espaço. Mas eles voltam. Fazem festa. Não pecam pela língua ferina – são pássaros, não caçadores, tigresas, panteras coloridas, esguias dos olhos azuis que espreitam no negrume dos arbustos a próxima vítima. Nessa conta, caso estivéssemos dentro da selva, tanto o cronista quanto os papagaios estariam próximos a virar filet.