(...) «Isidro, que se tinha por bisca velha, foi fazendo o jogo, certo de que a moça ia com o alembrete aos amos, porque tudo isto de criados são gente de levar e trazer.

Aí por volta das onze o fidalgo veio à porta:

  -- Então que deseja?

O Isidro, enrolando e desenrolando a carapuça, gemeu o recado quanto à demanda em que se achava envolvido por causa do cebolório. E, não se esquecendo de dizer que nunca nas eleições faltara com o voto ao sogro de sua senhoria, pediu-lhe para naquele aperto ser o seu bom padrinho.

O fidalgo escutava-o em silêncio, sem o encarar, teso como um pinheiro. Por fim, quando lhe ia a tornar resposta, apeou-se certo figuro na estrada, de cavalo suado, com arrieiro ao lado a suar também, todo frança e de vidro no olho. O senhor da Boavista foi direito a ele, ali ficando o Isidro plantado no chão, de boca aberta e assombrado.

Caía uma soalheira de rachar. O arrieiro passeou o lenço vermelho pela cara e sentou-se à sombra fresca, bem fruste, que a estava a tragar o meio-dia. O Isidro rapou da côdea com um cisgalho de queijo, que já lhe ladrava o estômago, e, trincando, perguntou:

  -- Quem é este graúdo?

  -- Homem, você não conhece o senhor doutor delegado?!

Deu-lhe o coração um baque; viera em boa altura para o fidalgo dispor o negócio a seu favor. E, in mente, batia o punho.

  -- Ah! Carvalha duma fona que te não livras de pagar as favas!

O arrieiro era de poucas falas e Isidro quedou-se para ali à espera, aborrecido e a malucar na morte da bezerra. Esperou, tornou a esperar, deu umas voltas pelo terreiro, espreitou as horas pela altura do sol, até que por fim -- já as casas davam sombra -- apareceu a moça com uma garrafa.

E deitando um copo de vinho para o arrieiro, em seguida outro para ele, disse-lhe:

  -- O meu senhor manda dizer que pode ir em paz. Como o senhor doutor delegado cá está de visita, hoje mesmo trata do assunto...» ...

                                                                                                              (continua)


antepositivo, do lat. frustum,i 'pedaço (de alimento), bocado; fragmento; pedaço de mineral de ouro', pelo it. frusto 'gasto pelo tempo; pedaço, bocado'; ocorre em cultismos do sXIX em diante: fruste (< fruste 'que apresenta um relevo gasto pelo tempo [diz-se de uma estátua, de um brasão, de uma moeda.]; rude, escasso', e este tb. com interveniência it.), frustear, frusto, frústula, frustulado, frústulo (< lat. frustùlum,i, dim. de frustum); para contraste, ver frustr-
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"