Salsicha: por que comê-la? Se não comê-la, como sabê-la?
alimentação, saúde e toxinas, reflexões existenciais, política brasileira, memória
Claro, eu nunca imaginei que não haveria um mundo de produtos tóxicos naquele pequeno pedaço de carne rosada em forma de um dedo mais gordo (não, nem vem que não tem. A maldade está na sua cabeça. Não na minha…), Maria Paula Curto* Parece que deu no TikTok – a bíblia moderna – que as salsichas que a gente come pela vida ficam no nosso organismo até 30 anos depois de engolidas! Desesperador, não? Pelo jeito, por mais que a gente tente, não há como escapar dessa marca, desse vestígio. O poder salsichal. Uma vez ingerida, lá ficará, solene, por 3 décadas! Já imaginou? Fiquei aqui pensando no meu caso: como eu sempre fui mais fã de cachorro quente do que de hambúrguer (nada gourmet, eu sei, mas eu sou assim, fazer o quê, não é mesmo?), quantos vestígios de antigas salsichas estarão no meu corpo? Vamos às contas: um cachorro quente por mês, começando minha vida de hot dogueira por volta dos 7 anos, agora, com meus 56, teremos a bagatela de 49X12 = 588 salsichas ingeridas!!! É muita coisa para um ser humano só. E eu que pensava que já tinha esquecido a sensação de ter um salsichão dentro de mim… Estou aqui, tranquila, saudosa, carregando restos de quase 600! Haja recordação… Tudo bem, não é a salsicha, inteira, que permanece no nosso corpo (o que, dependendo do caso, pode ser uma pena…), mas toxinas que a identificam. Claro, eu nunca imaginei que não haveria um mundo de produtos tóxicos naquele pequeno pedaço de carne rosada em forma de um dedo mais gordo (não, nem vem que não tem. A maldade está na sua cabeça. Não na minha…), mas eu não pensei nesse processamento tão lento. 30 anos circulando pelo meu sangue, agarrado a tecidos ou nervos, recusando-se terminantemente a ir embora? Como assim? Desapega! Sai desse corpo que não te pertence! Dizer adeus faz parte. Sem salsicha. Sem prazer. Valerá a pena?. Foto: Reprodução Pensei então em não mais comer salsicha. Abrir mão de vez dessa iguaria, como forma de me desintoxicar em definitivo. Bye bye toxinas! Hallo purificação! O problema é que só esse ano eu já devo ter comido uns 5 ou 6 hot dogs, pelo menos. Então, se eu a matemática ainda funciona, estarei impregnada de toxinas salsichais até, pelo menos, os 86 anos. Afff. E se eu viver até os 90 – e já vou ter vivido bem mais do que meus antepassados – vou passar apenas míseros 4 anos limpa e pura. Sem salsicha. Sem prazer. Valerá a pena? E quantas outras toxinas eu ando ingerindo por aí? Só nos últimos 4 anos do meu Brasil varonil, engoli mais sapo ou jacaré do que em todo o meu passado. E olha que, na escola, toda semana tinha cerimônia de hasteamento de bandeira e cantoria de hino. Tempos da dita. Dura. Fora os mais de 25 anos circulando nos escritórios da Faria Lima. Essa toxicidade também não sairá de forma fácil, nem rápida. E essa não apenas permanece, mas se expande, transborda, contamina. Corrói aquilo que sou e o que eu poderia ter sido. Num infinito remorso que dura. E endurece. Portanto, quer saber de uma coisa? Pode trazer o pão, só tira o miolo para poder dar espaço e baixa a mostarda da geladeira. Não será a salsicha que vai fazer diferença. *Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP
Texto originalmente publicado em Revista Fina