crônica Matheus Lopes Quirino Um verão pode ser triste quando se está com o braço quebrado. O sorvete derretido, que lambuza a mão; a pele descascada com cheiro de ontem. O sentido de andar pulando as poças de água, formadas nos sulcos de lama, entre uma calçada quebrada e a rua sem asfalto. O verão triste e tardio com a praia cinza e areia dura. O picolé caro e as crianças vestidas de roupão numa brisa gelada, à beira mar. Ao longe, despontam barquinhos feios no mar poluído, outrora novíssimos e azuis, sem tinta corroída pelo tempo. Daquele quadrinho de praia deserta, o garoto sonhava com uma embarcação romantizada. Algo como um navio pirata devidamente paramentado com capitão Gancho e os tapa olhos coloridos de musicais da Disney. Um elenco de marinheiros descamisados com músculos à mostra em corpos besuntados de bronze e suor, com as partículas de sal dourando suas tatuagens ao sol, como joias cravejadas flutuando num oceano tão azul quanto o azul. Azul, a cor do espiritualismo. Azul, a canção de Gal. Azul, arauto dos impressionistas. Pílula etária, capa de caderno surrado com memórias azuis. Olhos que perscrutam outros olhos azuis. Como grutas que se desnudam em segredo por vácuos que pingam silêncios. Outrora bandeira fincada em território inimigo, Azul, o maioral, personagem forte e terno, como um marujo bem humorado num filme bonito de se ver às noites de chuva. Dos pequenos Smurfs aos Dragões azuis, os balões e os borrões de tinta, os jeans que secam nos varais das casas de todas as cores, dos carros estacionados nos portões com cercas baixas. Da discórdia e dos fuscas azuis. Das televisões de tubo e cheio de pinho sol. Das dispensas cheias de latas de óleo e caixas de fósforo, palitos de dente. Dos vinis empilhados entre cacarecos empoeirados e parafusos & chaveiros de postos Texaco, Sinclair, etc. Uma mobília amadeirada e um quintal quase vazio. As flores crescem miúdas enquanto o verão se mostra com suas velharias. Publicado por Matheus Lopes Quirino Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino