Aportávamos na praia de nudismo. Que mistério profundo era ver, de longe, os banhistas tomando sol do jeito que chegaram a este mundo André Filipe* Quando eu tinha doze anos morei pertinho do mar. Num pequeno município litorâneo da Paraíba com nome de remo indígena: Jacumã. Como era bom! Tudo ali era muito nosso, já que a cidade vivia quase deserta. Exceto durante o carnaval e feriados prolongados, quando turistas e estrangeiros tomavam conta das ruas e pousadas com seus séquitos barulhentos. A praia era nosso quintal. Era na areia fofa e muito branca que nós, as crianças, passávamos os dias descalços, sem protetor solar, sem hora pra comer, numa deliciosa liberdade. Depois dos afazeres da escola, era passar a mão na bicicleta e cair no mundo, para desespero das mães. Em todo quintal havia no mínimo um cajueiro ou uma mangabeira. Até hoje não sei porque eram essas frutas eram mais comuns na região. Um caju amarelo, comido direto do pé, que podia ser doce ou azedo de fazer careta. Passear de barco era melhor do que tudo na vida. Navegar pela costa inteira se equilibrando no balanço ritmado causado pelas ondas, ver os peixes e outros bichos estranhos que davam as caras por lá. Era sempre uma aventura de dar frio na barriga. Então chegava o momento! Ninguém mencionava, mas todos aguardavam com uma ansiedade silenciosa. Aportávamos na praia de nudismo. Que mistério profundo era ver, de longe, os banhistas tomando sol do jeito que chegaram a este mundo. Todos nós contemplávamos fascinados aquela cena: homens, mulheres, crianças, sem nenhuma roupa, nem pudor. Outra grande emoção era construir uma burrica. A engenhoca consistia em um toco de coqueiro cravado na terra e outro na horizontal por cima do primeiro. Formava uma espécie de gangorra que, ao invés de subir e descer, girava em alta velocidade com uma criança em cada ponta. Perdia quem morresse primeiro. À noite, os adultos iam para um clube de lambada, a única diversão noturna da cidade. Nenhum de nós nunca soube o que realmente acontecia ali. Entravam e saíam umas mulheres com um batom muito vermelho e uma rosa estrategicamente pousada entre os seios. Haja imaginação! Ah, a infância… Esse chão sobre o qual caminharemos durante o resto de nossas vidas. Não fui eu quem disse isso, mas algum escritor que agora não recordo o nome. Depois que nos mudamos, nunca mais voltei àquela cidade. Vontade não me falta. Mas sei que a magia daqueles dias há muito já se perdeu. *André Filipe nasceu em 1992. Jornalista e escritor. Vive em Recife