Rapaz nenhum é capaz de segurar outro alguém quando se dá a queda do mundo Sibélia Zanon Dezembro adentrando e eu limpando a gaveta. Fazia mais de ano. Sei disso porque encontrei uma pena. Na verdade, um ingresso em forma de pena. Ingresso usado do último show que assisti antes do início da pandemia. Outros ingressos, cancelados e não concretizados, também estavam na gaveta, mas não havia memória afetiva grudada neles. Já o ingresso-pena remetia ao show em que Roberta Sá cantou o Giro, de Gil, como quem entende de premonição: “Tudo girou. Mundo girou”. A continuação “Me segura rapaz” saía do caráter premonitório porque, obviamente, rapaz nenhum é capaz de segurar outro alguém quando se dá a queda do mundo ou a “queda do céu”, como diria Davi Kopenawa. Enquanto eu olhava o ingresso, querendo reverter a rotação da Terra, minhas mãos agiam com independência fria. Rasgavam o ingresso-pena, rejeitando a melancolia, e colocavam seus retalhos na mesma categoria das contas velhas e das notas impassíveis. Sentir pena do que já não é, é coisa que acontece ultimamente em rotação contínua. Acontece tanto que já nem sei se tal volume de penas caberia numa gaveta de cômoda, numa gaveta-relicário ou em quantas gavetas. No dia que seguiu a limpeza da tal gaveta, botei o pé para fora do portão e a algazarra do passaredo me fez olhar o céu. E, lá de cima, caía uma pena. Em espiral. Feito dança. Ela era cinza e branca e tinha a ponta amarela quase fosforescente. A pena pousou no meu chão. Perder penas. Cai a pena de alguma inocência e nasce o senso de alguma realidade. Muita gente teve pena perdida no ano. E não foi pena leve de soltar. Acontece também com pássaro. A nova pelagem exige espaço. Aí se soltam penas viageiras para dar vaga ao inusitado. Renovar a pele, repensar o voo, experimentar nova aerodinâmica. Tudo nos obrigando ao novo. E eu fico aqui me perguntando: tem jeito de cair feito dança? Cair leve, fazendo graça? Cai a pena e a música continua de pé. Naquele mesmo show, Roberta aconselhava sabedorias de Gil em A vida de um casal: “O céu real nós vamos construindo aqui no chão Porção de sofrimento, tijolo, cimento e cal A laje do bem, no lamaçal do mal”. Cai a pena… feito dança. Para fazer graça, segue aqui a letra de música que enviei para o querido Maurício Detoni, que já esculpiu na voz e no dedilhado infalíveis um samba. Composição de dar alento, gosto e dança e que, logo mais, poderá ser cantada sem pena por aí: Pena brejeira Cai a pena feito dança Só tem pena quem voar Eu aprendo a saudade Nem ao menos sei dançar Se a pena é passageira Quer a pele renovar Ter uma pena brejeira Que se despe devagar Cai a pena feito dança Caio eu e cai você Nessa eterna ventania Ninho novo pra tecer Eu não quero sentir pena Do que não pode vingar Guardar pena do passado É pesada de chorar Cai a pena feito dança E eu danço pra você Aprendi com a saudade Que renasce sem porquê Que renasce sem você Que renasce Vem me ver imagem/Sibelia Zanon