Jovem pintor do Rio de Janeiro, que teve primeira individual ano passado, expõe virtualmente as pinturas de nova série

Matheus Lopes Quirino
Entre o onírico e o mundo terreno habita o imaginário pictórico do jovem pintor Antonio Kuschnir, 19, na série recém-compilada Intimidade. São 16 pinturas que trazem imagens disformes de casais praticando amor, sejam eles homem-mulher, cis gêneros, ou transgêneros. Talvez o único ponto de transgressão da obra, ao adaptar teses modernistas para o contexto de hoje, seja a fusão dos sexos em algumas figuras, recorrendo também ao surrealismo corporal, sempre acrescentando elementos do corpo feminino (seios) às corpulentas figuras que relaxam debaixo de palmeiras, na beira de um rio.
O encontro com uma estética do passado, sobretudo ao contexto campestre, é recorrente na série Intimidade, como o foi em O Nosso Sol É Vermelho, primeira individual do artista no ano passado. Ao retratar especificamente camponeses, Kuschnir levantou a bandeira da reforma agrária, aprofundando tons opacos de cores quentes com a intenção de inflamar o espírito das cenas a partir das cargas cromáticas que escolhe. O Nosso Sol É Vermelho se faz terrivelmente atual nos tempos incendiários que vivemos, quando no centro dos debates está o pantanal em chamas. Um sol saturado de vermelho alaranjado faz par com as queimadas, bandeirolas e cartazes pelo fim da exploração da terra e a favor da reforma agrária.

A intenção de jogar uma fagulha no palheiro segue em Intimidade. A fim de criticar os padrões estéticos “manequim”, Kuschnir cria figuras rechonchudas, com pés e mãos disformes, repletas de cavidades irregulares e excessos de cintura. “O objetivo dos corpos diferentes, fora dos padrões e da hegemonia cultural, é o de criticar todas as amarras e preconceitos que envolvem os que não se adequam aos limites estéticos impostos. É uma tentativa de desmistificar, naturalizar, normalizar o corpo (estando ele nu ou não), qualquer que seja seu formato ou sua cor.”, explicou o pintor, que não faz o tipo padrão Calvin Klein.
Em Intimidade ficam evidentes as referências a Di Cavalcanti ou Aldemir Martins. A começar pela paleta de cores e a ambientação. No contexto das discussões identitárias, que buscam o choque, seja ele estético ou midiático para a aceitação de suas ideias e realidades, Kuschnir a faz, mas longe de partir na ofensiva. Ele quer tranquilidade, supondo-se que socialmente (espera-se) tenhamos já chegado a um consenso onde não é mais preciso reafirmar condições, como ele ressalta: “A reação que eu quero causar é de conforto, de amor, de tranquilidade em geral. Nenhuma pintura dessa série tem objetivos além de buscar a completa e ampla aceitação de todos os corpos e seus amores”.

O pano de fundo das pinturas de Kuschnir é plenamente rural. Embora evoquem vieses dissonantes, “Acredito que essa volta se refira nas séries a dois ‘campos’ distintos, com significado opostos. No caso das séries onde o foco não é uma temática social-política, a natureza representa um espaço calmo e leve, uma Arcádia paradisíaca. É um local imaginário que quase sempre acolhe momentos de carinho e amor”.
Ainda em Intimidade existem os pequenos relances. Telefones, carregadores, cadernos de anotação, lápis, naturezas mortas, etc. Tudo junto e misturado. O pintor faz releituras à moda high-tech das naturezas mortas – que, diferente de flores e vasos, os eletrônicos dão um significado de sobrevida, já que continuam exercendo papel ativo na vida do espectador, diferente da passividade de um arranjo floral. “São objetos que fazem parte do dia a dia, alguns mais tecnológicos e modernos, outros mais antigos. O objetivo com as naturezas mortas é de jogar com esse contraste entre novo e velho, entre artesanal e digital. Além disso, são uma imensa oportunidade formal de exploração livre das cores e texturas.”, afirma Kuschnir.

Antonio Kuschnir começou cedo na pintura, aos 6 anos de idade já desenhava e explorava a paleta de cores com guache. Hoje, ele toma aulas na faculdade de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde expôs sua primeira coletiva. Nunca houve plano B, a arte sempre o guiou. “As imagens e cenários vêm da minha imaginação, representações de emoções ou de coisas que vi e vivi e observei no mundo ao meu redor. O grande mistério vem com as cores. As cores não são planejadas (para mim seria impossível), elas surgem conforme o processo da pintura se desenvolve e vão se encaixando umas nas outras de forma sempre nova e diferente.”.
Embora a pandemia tenha arrefecido e muito as vernissagens com artistas, Antonio Kuschnir segue a rotina indo todos dias a pé até seu ateliê. Predominantemente virtual, a presença do artista vem sendo notada aos poucos em ciclos fechados, embora o próprio artista critique o verniz intelectualizado e hermético que afasta o público em geral do circuito das artes. O marchand Victor Valery, que representa o artista, por ora fechou o ateliê-apartamento em que estão as obras do pintor, em São Paulo. Eles mesmos tocam o barco na divulgação e apresentação das telas, teclando até a cena geral possa permitir que as taças de espumante voltem a tilintar.
Todas as obras expostas ao longo do texto, assim como outras produções de Antonio Kuschnir, estão disponíveis no acervo virtual do autor.

Publicado por Matheus Lopes Quirino
Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino