divulgação Nastassja Martin parte de encontro inesperado de sua protagonista com um urso Laura Pilan À primeira vista, Escute as feras é o relato das experiências da antropóloga Nastassja Martin em uma expedição para o Grande Norte. Acima de tudo, o propósito de sua viagem é conhecer, estudar e aprender com os even – um povo nativo da Sibéria. Como território para a pesquisa de campo, a península de Kamtchátka oferece um panorama interessante de um modo de vida afastado de uma modernidade caótica, ainda se adaptando à realidade da Rússia pós-soviética e recuperando formas tradicionais de experienciar o coletivo e a espiritualidade. Neste contexto, Martin acrescenta alguns personagens à cena – Dária e Iúlia, Andrei e Ivan – com os quais desenvolveu um laço extremamente forte. Entre os rostos que se tornam nossos conhecidos, há um personagem que não pode ser esquecido e nem evitado: o urso. O ataque sofrido por Nastassja é um ponto de virada drástico em uma jornada até então pacífica. Tão inesperado quanto o acidente é a sua sobrevivência: Martin passa a ser conhecida como aquela que lutou contra o urso e viveu para contar a história. Neste confronto, a ideia de vitória se torna nublada e adquire inúmeras camadas de complexidade, uma vez que não há um campeão invicto: ela sobrevive, mas é conduzida ao hospital com ferimentos graves que exigem recuperação lenta e cautelosa. A estadia no hospital é o berço de muitas de suas reflexões – potentes e, acima de tudo, sensíveis. Utilizando-se de caneta e papel, Nastassja Martin expõe suas feridas em um relato de indiscutível vulnerabilidade. Ao colocar-se como um dos personagens de um acontecimento de proporções simultaneamente épicas e trágicas, permite que o leitor enxergue suas falhas e também seus egoísmos. Escute as feras ressalta aspectos como a força e a resiliência, mas também enfatiza as fragilidades inerentes à condição humana. A presença tão marcada da subjetividade é o que diferencia o relato de Nastassja de qualquer outro: essa história não poderia ser contada por nenhuma outra voz além da dela. E essa narrativa não pode ser desassociada da floresta, do frio ou do povo even. Eles emprestam palavras que só fazem sentido em seu contexto de origem, mas sem as quais o relato jamais poderia estar completo: Martin é miêdka – alguém que foi marcada pelo urso. O título lhe atribui a condição de metade humana e metade fera, desafiando compreensões ocidentalizadas e, muitas vezes, discriminatórias de espiritualidade. Sob as lentes de uma viajante e desbravadora, inúmeros aspectos culturais são desmistificados. Para começar a compreender o que Nastassja viveu, é necessário abandonar concepções pré-fabricadas e interpretações precipitadas. Depois de um encontro drástico com o urso, não é possível que sua identidade permaneça a mesma: a desfiguração de sua fisionomia é concomitante à fragmentação de sua personalidade. Mas a relação entre a fera e a sobrevivente de seu ataque é ainda mais complexa do que isso: se Nastassja está cindida entre o corpo humano e a criatura, também passa a ser completada pelo animal. O urso se torna parte dela – trata-se de um processo que é paradoxalmente de subtração e de soma. Ao perder parte de si mesma, também encontra peças que lhe faltavam – e que jamais teria descoberto se não fosse por essa experiência. Se o tamanho da revelação compensa o sofrimento, só cabe à ela decidir. Escute as feras é instigante não só pela curiosidade mórbida que o ser humano tem pelo trágico, mas por seu caráter absurdo. Lutar contra a ferocidade de um urso e sobreviver é um acontecimento tão inesperado quanto inexplicável. Ao transformar o improvável na matéria da narrativa, Nastassja Martin busca dar sentido a uma experiência extraordinária e, em última instância, à vida. Não há dúvidas de que esse é um peso impossível de ser suportado por um único par de ombros. Contudo, mesmo que o leitor não se depare com a solução para um enigma tão grandioso, ainda é possível que encontre lições valiosas – algo como esperança. Escute As Feras Nastassja MartinTradução de Camila Boldrini e Daniel Lühmann112 p.p2021 – 1ª edição