Muriel Lerner

Crédito da imagem: Páginas do livro “Antigonick” (2012), de Anne Carson

Anne Carson “traduziu” em 2012 a peça “Antígona”, do grego Sófocles, sob o título “Antigonick”. Acompanhado de ilustrações coloridas feitas por Bianca Stone, o livro é composto por páginas translúcidas e texto escrito à mão em letras garrafais, com escolhas particulares de formatação e diagramação. Há também outra versão impressa, que respeita os padrões de edição mais convencionais. No prólogo do livro, intitulado “a tarefa da tradutora de antígona” (em referência ao ensaio de Walter Benjamin), Carson escreve um poema-carta diretamente para Antígona.

Carson mapeia a influência de Antígona e algumas leituras já feitas sobre a personagem. Vários autores são mencionados (Hegel, Butler, Lacan e Žižek), além de passagens sobre as versões da peça escritas por Brecht e Anouilh. Antígona é uma figura que continua no imaginário social até hoje, continuamente interpretada sob todos os ângulos e associações possíveis: a representação da lei divina contra a lei dos homens; ícone feminista; uma aberração irracional; um novo campo do ser humano; a face da desobediência civil. Carson entende que Antígona, a peça ou a personagem é tão intrigante quanto controversa. Entretanto, seu objetivo é outro. Ela parece mais interessada em considerar Antígona como alguém que tem algo a dizer, e menos interessada no que ela quer dizer.

Eu conhecia a peça original, sabia que Antígona era muito estudada. Ainda assim, me deparar com o oceano de significados e leituras diferentes foi, de certa forma, atordoante. Não consegui deixar de conectar tudo isso ao ensaio de Susan Sontag, “Contra a interpretação”. A crítica discorre sobre seu desprezo pela maneira contemporânea de interpretação, sempre presa à necessidade de justificar uma obra de arte, devido ao “excesso de ênfase na ideia de conteúdo”. Nessa linha, a interpretação teria se tornado uma atribuição de significados, motivada pela vontade de “domesticar” uma obra, podendo revelar uma insatisfação, um desejo de que aquilo diga ou signifique outra coisa. A vida e cultura contemporâneas são baseadas e fundadas nos excessos, na abundância — e consequentemente, as interpretações transbordam. O que Sontag propõe, então, é o retorno da experiência sensorial: ver, ouvir, tocar. Cortar os excessos para que seja possível enxergar, de fato, a obra. Ao invés de determinar “o que a obra significa”, mostrar “como ela é o que é”.

Carson, no prólogo, utiliza as referências para mostrar ao leitor as múltiplas faces e significados atribuídos a Antígona, a suas ações, a suas falas. Mesmo assim, Antígona permanece misteriosa, evasiva. Antígona, diz Carson, “quer que nós escutemos o som do que acontece / quando tudo normal / musical / cuidadoso / convencional ou piedoso é levado embora”, fazendo menção à trajetória de Antígona, trágica desde o início. Seu pai é também seu irmão, sua mãe é também sua avó, seus irmãos morrem em batalha e ela se sacrifica para que um deles seja dignamente enterrado. Por seu espírito desafiador, Antígona é condenada à morte, após perder tudo o que considerava precioso.

A intenção de Carson não é definir Antígona, tentar impor aquilo que Antígona representa para a sociedade, ou desvelar seus mistérios — aquilo que Sontag critica na prática contemporânea de “interpretar”. A maneira como Carson decide “traduzir” a peça é econômica, sucinta, comparada a traduções prévias. Ela deixa somente o que considera importante, sem muitos floreios líricos. Carson faz uma diferenciação clara entre quais são os seus problemas e os problemas de Antígona: “meu problema é levar você e seu problema / do grego antigo para o inglês”. Carson ainda escreve: “não é que queiramos entender tudo / ou mesmo entender qualquer coisa / nós queremos entender outra coisa”, sugerindo que os interesses de Antígona são tão particulares que ainda permanecem turvos e atuais.  Carson acredita que Antígona tem algo a dizer, algo a gritar, ainda que estejamos sempre voltando a ela e atualizando seja lá o que for que ela diga, por isso, para Carson, a tarefa dela como tradutora é “proibir que [Antígona] perca seus gritos”.