(...) «A Catedral era da grandura duma veiga, mas delicada e voluptuosa como uma rapariga. As suas tintas sorriam, as suas colunas em quincôncio cantavam, e do entrelace dos arcos e do redemoinho dos arabescos, uma sensibilidade quase táctil dispunha o pensamento à graça e à alegria. E se Rafael semicerrava os olhos, figurava-se-lhe que as mil colunas de veias cor-de-rosa e violeta não eram apenas emparos de mármore, mas braços roliços que se houvessem enterrado no solo, gemendo, ao peso dum gozo, uma leda harmonia; que os capitéis eram as mãos crispadas num delicioso coro de súplicas; que os ornatos, que vestiam os muros, eram a poeira luminosa dos beijos, irradiando em centelhas orquestrais. E por toda a mole imensa, desde o Pátio das Laranjeiras, onde árvores sempre verdes derramavam sombras olorosas, até o magnificente Mihrab, percutindo na penumbra das naves e no galope dos arcos altivos, a enfeitiçadora música zumbia. E ao seu arpejo, Rafael sentia-se arrastado longe dali, como para um mar, o mar- paraíso das huris, em que vagas de gozo, branda, brandamente, o balouçassem. Já os olhos tristes de Jesus o não seguravam ao vale de lágrimas. Ele próprio, que passeara sobre as ondas e era âncora segura nos naufrágios, tremia no aparato gótico como em esquife que vai a soçobrar. E Rafael deixou de perseguir com o seu anseio os olhos sem esperança.» ...
(continua)