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Mai24

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

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... «Nesse salto do século, a aventura de Portugal declinava para o ocaso. Estava transposta a linha da cumeada. Tudo agora era declive. De modo especial, os vizinhos de Lisboa -- porque esses, ou seus próximos, é que concorriam ao ring -- viviam o mais fidalgamente que lhes era possível, corrompendo uns na abundância, batendo outros o dente na mediocridade e na penúria dourada. Mas sempre fidalgos, isto é, cabeça alta, espada no talim, pluma branca no chapéu, orgulho tão desmedido que só Deus lhes conhecia as misérias. Claro que com este modo de ser apenas eram conciliáveis a ociosidade e a livre gandaia. Quando muito, o exercício das armas.

O número dos celibatários cresceu, era fatal que crescesse porque a vida ventureira assim o impunha e nada mais ponderoso e constringente que ter mulher e filhos com o respectivo lar a manter. Os claustros superpovoaram-se. Para os sinistrados do mundo, desde que fossem de boa família, para os congenitamente velhos, para os tíbios de temperamento, para os sibaritas  --  e na linha nobiliárquica dos grandes de Portugal estes frutos eram comuns -- aquele era o seguro e demandado porto de abrigo. As casas religiosas recebiam todos os salvados do naufrágio social como golfos. Compreendia-se: ali não faltava nada, nem honras, nem ripanço, nem mesmo Cristo. Em contraposição, a carência da gente na marinha, no comércio, nas armas, tornava-se calamidade. Aos quinze anos, os filhos-famílias investiam-se duma alforria que os pais de resto lhes não contestavam. E, verdade seja, comportavam-se na guerra como os veteranos. D. António de Noronha e o filho de Sá de Miranda em Ceuta, o duque de Aveiro em Alcácer, morreram quase rapazinhos, ao entrar da puberdade.

Não tinha a juventude sistema pedagógico, ou padrão, que a norteasse, nem bom nem mau. À data de 1550 contavam-se em Lisboa sete mestres de gramática, o mesmo era que de instrução secundária, e trinta e quatro de primeiras letras. Mas havia quatrocentas e trinta lojas de ourives e duzentos botequins e tavernas. Entravam anualmente nos bazares vinte e dois mil escravos. Com a vertigem da aventura, imolavam-se ao luxo e à tirania da ostentação todos os brios. Nunca como então se vendeu a alma ao Diabo. Portugal e, na base molecular, o português eram elementos à deriva. Nem norma, nem disciplina. Falhava a coesão íntima que torna as famílias solidárias como polipeiros e os Estados seus centros ganglionares susceptíveis de lhes condicionar a progressão e defesa.» ...

(continua)

publicado às 19:29